sábado, 17 de novembro de 2007

MSX

Muitas pessoas ao meu redor imaginam que eu entendo tudo de computadores. Algumas vezes eu até queria que isso fosse verdade, mas infelizmente não é o caso. Eu compreendo, porém, de onde surgiu esta crença: comecei a conviver com computadores muito cedo, aos nove anos de idade. Tudo bem que hoje em dia algumas crianças já sentam na frente do monitor aos três, mas eu tinha nove anos em 1987, então pelo menos demonstrem um pouco de respeito pela minha história. Meu primeiro computador, inclusive, nem foi um PC, mas um MSX.

E o pior é que eu me lembro daquele dia como se tivesse sido ontem: eu tinha ido com meu pai, mãe e irmã passear no Barra Shopping, e em um determinado momento meu pai entrou na loja Garson (eu disse que foi há muito tempo), e me convidou para olhar os computadores com ele. Eu não entendia nada daquilo, e achava que era só um videogame com teclado, então pouco participei, mas acompanhei a conversa do meu pai com o vendedor, que resultou na compra de um modelo Hotbit (do original, branco e cinza). No início, evidentemente, pra mim era só um videogame com teclado (e cujos jogos demoravam uma eternidade para começar, já que eram carregados através de fitas cassete), principalmente porque era ligado na televisão, não em um monitor, mas pelo menos serviu para que eu já fosse me acostumando ao maravilhoso mundo da informática. Eu gostei tanto daquele troço que até colecionei uma série em fascículos sobre computadores da época (que hoje é até meio engraçada de ler, mas eu ainda acho superlegal). Quando meu pai comprou nosso primeiro PC, em 1995, aquilo já não era exatemente uma novidade, e talvez por isso eu tenha me acostumado tão rápido. Hoje em dia, meu Hotbit provavelmente não existe mais, já que os amigos do alheio invadiram a minha casa em 1994 e o levaram, mas ele viverá para sempre em meu coração.

MSX HotbitAparentemente, aliás, muito mais gente aqui no Brasil ainda tem um MSX no coração, tanto que ainda hoje, mais de dez anos após o lançamento do último modelo da série, o computador ainda conta com milhares de entusiastas, que se reúnem em feiras e convenções regularmente, para manter viva a memória do micro. O curioso é que nos Estados Unidos e Europa o MSX nunca foi muito popular - a maior parte dos norte-americanos sequer sabe que existiu um computador chamado MSX - mas mesmo assim um revival do sistema parece começar a se alastrar pelo mundo, com o lançamento de um emulador oficial, de um novo micro compatível com MSX no Japão, e a disponibilização dos mais populares jogos de MSX para o console virtual do Wii.

O MSX surgiu em 1983, no Japão, como uma tentativa de se criar um padrão para os computadores caseiros. Hoje em dia isto pode parecer meio estranho, mas na época computadores eram iguais a videogames, cada fabricante inventava o seu, e os programas que rodavam em um não serviam para nenhum dos outros. Um dos executivos da Microsoft japonesa, Kazuhiko Nishi, teve a idéia de criar um computador "livre", ou seja, que qualquer fabricante pudesse colocar no mercado, o que contribuiria para sua popularização. Se tivesse dado certo, talvez hoje todos tivéssemos um MSX em casa ao invés de um PC.

Para colocar seu plano de "computador genérico" em prática, Nishi decidiu utilizar apenas componentes que já existissem no mercado da época; assim, um MSX era composto de um processador Zilog Z80, de 8 bits e 3,58 MHz; um processador gráfico Texas Instruments TMS9918, com 16 Kb de RAM, modo texto de 40 colunas por 24 linhas, e resolução 256 x 192 e 16 cores; um processador de som AY-3-8910 da General Instrument; e um controlador de periféricos Intel 8255. Todas estas peças eram de fácil aquisição pelos fabricantes da época, e inclusive muitas delas já faziam parte de outros computadores e videogames, como o Colecovision, um dos rivais do Atari - curiosamente, devido a estas semelhanças, alguns emuladores de MSX, como o blueMSX, também rodam jogos de Colecovision. Além destes chips, o MSX ainda tinha 32 Kb de ROM, reservados para a BIOS e o sistema operacional, e entre 8 e 128 Kb de RAM, sendo que a maioria era fabricada com 64 Kb.

O MSX era composto apenas pelo computador em si e o teclado; para baratear o preço, ele não possuía monitor, e podia ser ligado a qualquer televisão, justamente como um videogame. Além da saída para a TV, o computador tinha ainda duas entradas para joysticks, padrão 9 pinos, semelhantes às do Atari; dois slots onde podiam ser encaixados cartuchos de jogos e de expansão de memória; uma porta serial, para ligar periféricos; e uma entrada/saída para ligar um gravador, daqueles de fitas K7. Pois é, um gravador: muitos jogos e programas para MSX vinham gravados em fitas K7, pois drives de disquetes eram um periférico muito caro na época; para fazê-los rodar, bastava colocar no gravador, digitar um comando no computador, e apertar a tecla play. A desvantagem era que o programa carregava na mesma velocidade da fita, então se fosse um jogo grande, por exemplo, o usuário tinha que esperar uma meia hora para poder jogá-lo.

MSX ExpertComo computadores não são feitos só de peças, faltava um sistema operacional, o MSX-Basic, produzido pela própria Microsoft (por esta razão, muita gente acha que MSX significa "MicroSoft eXtended", mas o próprio Nishi já declarou que criou esta sigla com o nome "Machines with Software eXchangeability", algo como "máquinas com software intercambiável", em mente). Apesar do envolvimento da firma de Bill Gates com o projeto, a Microsoft jamais fabricou um MSX: após montar o projeto e se certificar de que ele funcionava, Nishi o ofereceu a diversas outras firmas; os primeiros MSX do Japão chegaram às lojas fabricados pela Sony, Toshiba e National (que depois mudou de nome para Panasonic).

Com o avanço da tecnologia, os fabricantes conseguiram reunir todos os processadores usados pelo MSX em um único chip, batizado de MSX-Engine. Isto levou a uma popularização ainda maior do computador, que passou a ser fabricado também pela Sanyo, Mitsubishi, Hitachi, Canon, Casio, Pioneer, Fujitsu, e Yashica-Kyocera no Japão; chegou à Coréia e Itália pelas mãos da Goldstar, Samsung e Daewoo; foi lançado em praticamente toda a Europa pela Philips; e finalmente aportou nos Estados Unidos, fabricado pela Spectravideo e pela Yamaha. A chegada do MSX à América causou um grande rebuliço na indústria de computadores, então envolvida em uma guerra de preços deflagrada pela Commodore. Imaginava-se que, por causa disso, e devido à sua característica de poder ser fabricado por qualquer um, o MSX iria rapidamente dominar o mercado, mas não foi bem isso que aconteceu: acostumado a computadores como o Commodore 64 e o Amiga, o público norte-americano não deu muita bola para o computador japonês, e a maioria dos que compravam um MSX preferiam utilizá-lo como sintetizador musical, devido à qualidade de seu som. Na Europa o MSX também não deu muita sorte: quando chegou, o mercado já estava dominado pelo Commodore 64 e pelo ZX Spectrum da Sinclair; ainda por cima, o MSX foi lançado quase na mesma época que o NES e o Master System, e o resultado foi que pouca gente sequer prestou atenção em seu lançamento.

No Japão, Coréia do Sul, União Soviética e Brasil, porém, o MSX se tornou extremamente popular. O primeiro modelo lançado aqui foi o Hotbit HB-8000, fabricado pela Sharp, em 1985. O Hotbit era uma peça única, ou seja, o teclado estava "preso" ao computador, algo estranho para hoje, mas não muito diferente dos demais computadores da época. Junto com ele, a Sharp lançou um joystick e um gravador (chamado Datarecorder); mais tarde, foram lançados também um drive de disquetes de 5 e 1/4, e um cartucho de expansão de memória. O sistema instalado era o MSX-Basic 1.1 BR (em português), mas se quisesse você podia utilizar o mais moderno MSX-DOS. Algum tempo depois novos periféricos foram lançados por outros fabricantes, como impressoras, um monitor monocromático, e até um modem (segundo alguns, "o hardware mais plug and play da história"; bastava ligar no MSX, na linha telefônica e usar, sem instalar absolutamente nada).

Antarctic AdventureAinda em 1985, quase simultaneamente com o Hotbit, chegou ao mercado o Expert, fabricado pela Gradiente. A principal diferença entre o Expert e o Hotbit era que ele não era uma peça única, mas duas, uma composta pelo computador em si, com as saídas e entradas, e outra pelo teclado, fininho e bastante parecido com um teclado de hoje em dia. Algumas vantagens do Expert eram que os dois slots eram localizados bem na frente (os do Hotbit eram um no topo, tipo de videogame, e o outro na lateral, escondido por uma portinha) e que ele já vinha com o gravador, enquanto o do Hotbit era vendido separadamente. Além disso, alguns pareciam preferir o Expert porque o fundo da tela, quando editando texto, era preto, enquanto no Hotbit era azul. Como era de se esperar, qualquer periférico lançado no Brasil, fosse da linha Hotbit ou de outros fabricantes, era totalmente compatível com o Expert, pois esta era a idéia do MSX.

O MSX foi considerado um sistema muito bem sucedido, mas infelizmente não se tornou o sistema-padrão que almejava. Aproveitando seu sucesso no Japão, porém, Nishi decidiu lançar, em 1986, uma versão melhorada do computador, que ficou conhecida como MSX2. O processador ainda era o Zilog Z80, mas agora o MSX2 tinha uma ROM de 48 Kb, com capacidade para uma BIOS estendida, um novo sistema operacional, o MSX-Basic 2.0 (e mais tarde o 2.1), e dois programas adicionais, um controlador de drives de disquete (que já vinha instalado na maioria dos MSX2) e uma BIOS específica para áudio (que deveria ser instalada separadamente). O processador gráfico passou a ser o Yamaha V9938, com 128 Kb de RAM, modo texto de 80 colunas por 24 linhas, e dois modos de resolução, 512 x 212 com 16 cores ou 256 x 212 com 256 cores. O processador de som também era um Yamaha, o YM2149, e a RAM do sistema aumentou para de 64 Kb a 512 Kb, sendo os modelos de 128 Kb os mais comuns. A maioria dos MSX2 também já vinha com um drive de disquetes de 3 e 1/2 embutido, além de todas as saídas e entradas normais do MSX.

NemesisAssim como ocorria com o MSX, todas as peças necessárias ao MSX2 eram fáceis de se encontrar no mercado, e qualquer um que se dispusesse podia montar o seu e comercializar. Assim, o MSX2 foi fabricado no Japão pela Sony, Sanyo, Samsung, Mitsubishi, JVC, National, Canon e Yamaha, na Coréia do Sul pela Daewoo e na Europa pela Philips. O MSX2 nunca chegou aos Estados Unidos, e, de certa forma, nem ao Brasil, embora a ACVS e a DDX tenham lançado "kits de conversão", que permitiam transformar qualquer Hotbit ou Expert em um MSX2.

A Sharp e a Gradiente, aliás, além de não se interessarem em lançar o MSX2 por aqui, ainda deram vexame: em 1987 (quando já existia MSX2, portanto), a Sharp lançou uma nova versão do Hotbit, na cor preta, mas cuja única diferença em relação ao original era o sistema operacional, agora o MSX-Basic 1.2 BR. A Gradiente fez ainda pior: em 1989 lançou o Expert Plus, também na cor preta, com sistema 1.2, modo texto de 80 colunas por 24 linhas, e uma série de "melhorias" que, segundo alguns, o deixaram ainda pior que o Expert original. Este "passo atrás" foi mais ou menos resolvido no mesmo ano com o lançamento do Expert DD Plus, sem as tais melhorias e com um drive de disquetes embutido - mas mesmo assim um MSX original, e não um MSX2. Não se sabe porque as fabricantes brasileiras não se interessaram em lançar o MSX2 por aqui, mas alguns põem a culpa nos kits de conversão, que chegaram aqui praticamente junto com os MSX originais.

Em 1988, o MSX ganhou mais uma nova versão, que ficou conhecida como MSX2+. Quase toda a configuração do MSX2 foi mantida, à exceção da ROM, agora com 64 Kb, com uma BIOS estendida, controlador de drive de disquetes, MSX-Basic 3.0, e dois programas opcionais para escrever na tela em japonês; da velocidade do processador, que agora podia chegar a 5,37 MHz; e do processador gráfico, que passou a ser o Yamaha V9958, com todas as especificações do V9938, mais um novo modo de resolução de 256 x 512 com 19.268 cores. Os fabricantes também podiam optar por instalar um processador de som extra, um Yamaha YM2413, mas isto encarecia o custo final do computador. O MSX2+ só foi lançado oficialmente no Japão, onde era fabricado pela Sony, Sanyo e Panasonic, mas kits de conversão tanto para transformar MSX quanto MSX2 em MSX2+ foram lançados na Europa e no Brasil.

KnightmareA última versão do MSX foi lançada em 1990, e recebeu o nome de MSX Turbo R. Como nesta época o mercado mundial de computadores já estava dominado pelos PCs, ele nem chegou a ser lançado fora do Japão, nem sob a forma de kits de conversão, e só chegou a ser fabricado pela Panasonic. O nome "Turbo R" vem do novo processador do sistema, o Zilog R800 de 7,16 MHz. O processador gráfico era o mesmo do MSX2+, mas o MSX Turbo R contava com quatro processadores de som, os Yamaha YM2149 e YM2413, um PCM e um MIDI. A ROM tinha 96 Kb, distribuídos entre uma BIOS estendida, o MSX-Basic 4.0, o controlador de drive de disquetes, um firmware, e dois programas opcionais para escrever em japonês. A RAM podia ser de 256 Kb ou 512 Kb. Todos os Turbo R vinham com drives de disquete embutidos.

O principal atrativo do MSX eram os jogos, tanto que até hoje há quem considere o MSX como um videogame de luxo. Como o MSX foi lançado antes dos videogames de 8 bits, as principais softhouses japonesas concentraram seus lançamentos nele, principalmente a Konami, que possui uma longa lista de clássicos para o sistema, como Antartic Adventure, Magical Tree, Knightmare, TwinBee, King's Valley, Super Cobra e a série Nemesis (conhecida no Japão como Gradius). Algumas séries de jogos hoje famosos debutaram no MSX ou no MSX2, incluindo Metal Gear, Bomberman, Eggerland Mystery (conhecido nos EUA como Adventures of Lolo), Aleste e Parodius. Além disso, vários jogos que já faziam sucesso em outras plataformas também foram lançados para MSX2, como Final Fantasy, e Castlevania (com o nome de Vampire Killer). Enfim, uma lista de jogos para ninguém botar defeito.

O MSX foi oficialmente descontinuado em 1995. Ao todo, vendeu 5 milhões de unidades, bem menos que o Commodore 64 (17 milhões), mas quase tanto quanto o Apple II (6 milhões) e bem mais que o Amstrad CPC (3 milhões), considerados seus principais concorrentes. Em 2006, a companhia D4 Enterprise anunciou o lançamento de uma nova versão, o 1chipMSX, um aparelho que contém todos os processadores do MSX2, dois slots, duas entradas para joystick, saídas de áudio, VGA, S-Video e Composite, um conector PS/2 e duas portas USB; o intuito é que o usuário o ligue a um monitor ou à sua própria TV, a um teclado de PC, e o use como se fosse um MSX. Ainda que não esteja vendendo em quantidades expressivas, seu próprio lançamento é uma prova de que o MSX continua popular, movimentado por uma sólida base de fãs, principalmente de seus ótimos jogos.

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