domingo, 15 de outubro de 2006

Inimigo Meu

Quando eu era pequeno, a exploração espacial estava na moda. Naves espaciais, alienígenas e planetas coloridos apareciam por toda parte, até mesmo em um jogo meio Batalha Naval cujas peças - na verdade figurinhas - vinham dentro dos salgadinhos Elma Chips. Essa fascinação também ocorria no cinema, onde praticamente toda semana saía um filme novo cujo tema era o espaço. Às vezes eu até acho isso curioso: numa época em que as naves tinham de ser miniaturas penduradas por fios, e os alienígenas eram pessoas maquiadas, fantoches, bonecos ou animatronics, tivemos uma tonelada de filmes espaciais. Hoje, quando qualquer criança consegue criar naves e monstros por computação gráfica, eles sumiram. Sério, quantos filmes de ficção espacial você viu estrear esse ano? Vai ver acharam que perdeu a graça.

Bom, mas eu estou digressionando e me afastando do ponto principal, que é: na década de 80, qualquer história ficava mais legal se você incluísse naves, alienígenas e planetas estranhos. Até mesmo uma história onde duas pessoas que se odeiam são forçadas a conviver, e acabam descobrindo que possuem mais semelhanças que diferenças. Alguns já devem saber de que filme estou falando: Inimigo Meu.

Lançado no hoje longínqüo ano de 1985, mas impressionantemente atual, com o título original de Enemy Mine - um trocadilho de respeito em inglês, pois pode passar a impressão de que meu inimigo sou eu mesmo - Inimigo Meu foi dirigido pelo alemão Wolfgang Petersen, que um ano antes tinha lançado um dos maiores clássicos da fantasia, A História Sem Fim. Baseado em um premiado livro de Barry B. Longyear, sua história não tem nada de mais. Provavelmente, nós já a vimos em centenas de outros filmes, livros e novelas. No caso, é a ambientação que faz a diferença: podiam ser um inglês e um alemão, um americano e um soviético, um japonês e um chinês, um judeu e um árabe - mas são um humano e um drac.

Segundo a história, no final do Século XXI, todas as nações da Terra estarão finalmente em paz. Unidos, os humanos partirão para a colonização espacial, indo para cada vez mais longe de seu planeta natal atrás de novos lares e novas riquezas. Ao chegar a um dos sistemas mais ricos da galáxia, porém, os humanos descobrem que ele já tem dono: os dracs, habitantes do planeta Dracon. Seres reptilianos de pele escamosa, os dracs começaram suas viagens espaciais antes dos humanos, e se autodenominam "descobridores de novos mundos". A sociedade drac é estruturada no respeito aos antepassados, de forma que cada drac sabe citar sua linhagem completa até a fundação do planeta, 170 gerações atrás. Além disso, dracs são hermafroditas, e se reproduzem assexuadamente, dando a luz a um novo drac "quando é chegada a hora".

Pois bem, durante uma batalha, o humano Willis Davidge (Dennis Quaid) e o drac Jeriba Shigan (Louis Gossett Jr) se envolvem em um acidente, e acabam naufragando em um planeta não-explorado. Como o co-piloto de Davidge morre na queda, ele a princípio persegue o drac para matá-lo. Quando uma chuva de meteoros assola o planeta, porém, ambos percebem que a única chance que têm de permanecerem vivos é cooperando.

Ao longo do filme, a relação entre Davidge e o drac, que ele apelida de "Jerry", passa por vários estágios. No início, eles se odeiam. Depois, eles apenas se suportam. No fim, acabam amigos. Davidge ensina o drac a falar inglês, ajuda a construir um abrigo à prova de meteoros, e caça a estranha fauna local para servir de comida. Jerry, por sua vez, ensina o humano a falar drac, e passa a ele os ensinamentos de Shizumaat, o Grande Professor Drac, ensinamentos estes que norteiam a vida de qualquer drac, e não por acaso idênticos aos das religiões da Terra, como por exemplo o de que devemos amar até mesmo nossos inimigos. Com a convivência, Davidge e Jerry descobrem que não são tão diferentes assim, e que só se tornaram inimigos por convicções ideológicas.

Mas o filme ainda reserva uma surpresa: cansado de esperar por um salvamento que nunca chega, Davidge decide explorar o planeta, e acaba descobrindo que os Sucateiros fazem extração de metais preciosos nele. Os Sucateiros são humanos que capturam dracs para usar como escravos, e exploram planetas ainda não colonizados até acabar com suas riquezas minerais. Davidge decide não contar nada a Jerry, mas, quando retorna, descobre que ele está "grávido". Jerry morre "durante o parto", mas faz Davidge prometer que criará seu filho, Zammis (Bumper Robinson, que hoje em dia é dublador), levando-o de volta a Dracon quando chegar a hora.

Novamente sozinho com um drac, Davidge passa a ter a missão de criar o pequeno Zammis, até ter uma oportunidade de tirá-lo de lá. Durante mais uma visita dos Sucateiros, porém, Zammis, curioso para ver outros dracs, acaba capturado. Alguns dias depois, Davidge finalmente é resgatado por seus antigos companheiros, que estavam seguindo a nava dos Sucateiros. Para manter a promessa que fez a Jerry, Davidge decide voltar ao planeta, e resgatar Zammis de seus captores.



Inimigo Meu é um filme que matém o espectador interessado do início ao fim, mesmo só com dois personagens na maior parte do tempo. Tanto Quaid quanto Gossett têm atuações perfeitas, com muitos inclusive considerando que este é o melhor papel da vida de Gossett. Seu visual é meio "retrô", mais parecido com as séries dos anos 60/70 que com os demais filmes da época, com planetas de céu colorido e que se parecem com grandes bolas de praia quando vistos do espaço. Além disso, ele traz uma lição que, infelizmente, todo mundo conhece, todo mundo adora ver em filmes, mas quase ninguém pratica: diferente não significa errado.

Curiosamente, Inimigo Meu não é considerado um bom filme justamente por causa disso, sendo considerado por muitos como bobo, ingênuo, e até mesmo forçado. Eu já ouvi mais de uma vez que "só porque os dois ficaram amiguinhos, não significa que acabou a guerra". Concordo, mas ninguém disse que era para acabar. Este pensamento equivale a dizer que a amizade entre um branco e um negro de nada vale porque não acaba com o racismo, ou que a amizade entre um judeu e um muçulmano de nada adianta porque não acaba com a intolerância religiosa. A mensagem de Inimigo Meu não é em nível global, mas individual: não é porque o meu planeta está em guerra com o seu que eu não posso ser seu amigo. Talvez um único indivíduo deixando de lado um preconceito decorrente de seu ambiente social não vá fazer tanta diferença no âmbito geral, mas nunca se sabe. Talvez seja apenas o primeiro passo.

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