domingo, 21 de maio de 2006

Alice

Desde pequeno, eu adoro ler. Comecei com revistinhas da Mônica, passei para aqueles livrinhos infantis de poucas frases por página, dali para os X-Men, então para livros com mais texto que figuras, e não parei mais. Não me lembro quantos anos tinha quando comecei a ler os tais livros que tinham mais textos do que figuras, mas foi cedo. Minha mãe tinha - aliás, tem até hoje - uma coleção do Monteiro Lobato em um monte de volumes; alguns deles são histórias do próprio Lobato, como Reinações de Narizinho e A Chave do Tamanho, outros são traduções feitas por ele de histórias consagradas, como Robin Hood e Alice no País das Maravilhas. Aqui chegamos onde eu queria. Alice foi o segundo livro desta coleção que eu li (ou o terceiro, já que o primeiro foi Os Doze Trabalhos de Hércules, que era em dois volumes) e, apesar de - ou talvez exatamente por - ser totalmente sem pé nem cabeça, imediatamente me apaixonei pela história. Desde então, tudo o que tenha Alice me interessa: li Através do Espelho, assisti ao desenho da Disney, comprei o jogo da Electronic Arts, e estou até disposto a ver o filme que sai no ano que vem, embora sob protesto por Alice ser interpretada por Sarah Michelle Gellar. Já li três traduções diferentes do País das Maravilhas, e uma versão original em inglês que achei na internet, cortesia do Sr. Domínio Público. Minha única frustração em matéria de Alice é que provavelmente eu nunca vou conseguir assistir ao filme de 1933, com Gary Cooper e Cary Grant, mas a esperança é a última que morre.

Alice: Edição ComentadaHá algumas semanas, minha coleção de Alice ganhou um novo item, um livro que, desde a primeira vez que vi, achei extremamente curioso: Alice: Edição Comentada, com notas de Martin Gardner, um dos maiores especialistas mundiais em Lewis Carroll - o autor de Alice, para quem não sabe. Publicado no Brasil pela Jorge Zahar Editor, o livro é um tijolinho de 303 páginas, que reúne País das Maravilhas e Através do Espelho, ambos retraduzidos e com ilustrações originais de John Tenniel, mais um episódio inédito do Espelho, rascunhos de Tenniel, e duas enormes listas, uma de tudo o que Carroll escreveu e tudo o que escreveram sobre Carroll; e outra com todas as adaptações já feitas de Alice para outros meios, como cinema e TV. Fora as listas e os rascunhos, todo o resto é extensamente comentado por Gardner, com explicações sobre porque certas passagens do livro são daquele jeito, versões originais dos poemas satirizados por Carroll, explicações de trocadilhos e piadas que já se perderam no tempo, e muito mais. Dá um trabalhão para ler, mas fica muito mais "com pé e cabeça", e ainda ajuda a afastar rumores como "Alice morreu e o País das Maravilhas é o inferno", tão comuns entre os que procuram inventar explicações para a história.

Em grande parte, a dificuldade em se entender os livros de Alice vem do fato de que eles são um tipo de "piada interna". A menos que se conheça quem foi Lewis Carroll e por que ele decidiu escrever estes livros, o máximo que você pode fazer é entrar na viagem e se conformar por estar lendo nonsense. O post de hoje, mais do que homenagear a minha talvez personagem preferida de ficção, vai tentar jogar um pouco de luz sobre o assunto. Mas sem estragar o trabalho de Gardner; quem quiser que vá comprar um Alice Comentado como eu fui.

O homem que viria a ser conhecido como Lewis Carroll nasceu Charles Lutwidge Dodgson, em 27 de janeiro de 1832 em Cheshire, Inglaterra. Viveu praticamente toda sua vida em Oxford, onde se formou em matemática, e lecionava na faculdade de Christ Church, onde era considerado um professor de aulas sem graça, que chegou a escrever alguns livros com problemas divertidos, mas nenhum especialmente relevante. Anglicano, era extremamente religioso e muito ortodoxo, a não ser pela incapacidade de acreditar na danação eterna. Chegou a ser ordenado diácono, mas raramente pregava, e jamais chegou a ser pastor devido a duas deficiências físicas: era gago e surdo de um ouvido. Inimigo feroz da linguagem indecorosa e de diálogos picantes em peças de teatro, Dodgson era tido como esnobe, mas na verdade era excessivamente tímido, capaz de ficar horas em uma reunião sem proferir uma única palavra. Além disso, era um solteirão convicto, que jamais havia tido sequer uma namorada, rabugento, excêntrico e cheio de manias. Apesar disso tudo, era visto por seus amigos como uma figura gentil, e querido por grande parte da população da cidade.

Além de uns poucos amigos íntimos, Dodgson só se sentia à vontade na companhia de crianças. Mais especificamente, de meninas, já que os meninos ele não suportava e fazia o possível para não ter contato direto com eles. Dodgson adorava contar histórias, charadas, fazer truques de mágica, ensinar jogos e montar brinquedos para as meninas, e sua gagueira sumia quando conversava com elas. Se interessou pela fotografia quando esta arte ainda estava em seu início, apenas para poder tirar fotos de meninas. Se fosse hoje em dia, provavelmente ele seria considerado um pedófilo, mas não há qualquer prova de que Dodgson tenha tido qualquer interesse sexual por qualquer menina de Oxford que tenha convivido com ele. Pelo contrário, todas elas, depois de crescidas, continuaram se lembrando dele com carinho, e hoje já se tem acesso a vários diários de meninas da época que narram suas tardes agradáveis em sua companhia.

Lewis CarrollDodgson tinha muitas amiguinhas, mas uma delas era especial: Alice Liddell, a segunda das cinco filhas de seu amigo Henry George Liddell. De todas as meninas que conheceu na vida, Alice, sem dúvida, foi a que mais o impressionou, ao ponto de muitos acharem que ele se apaixonou por ela. Foi durante um passeio de barco no Rio Tâmisa, em 1862, do qual tomaram parte Dodgson, o reverendo Duckworth, Alice e suas irmãs Edith e Lorina que Alice no País das Maravilhas nasceu. Enquanto passeavam, Dodgson ia contando às irmãs Liddell a história de uma menina chamada Alice que, em tédio, segue um coelho branco através de sua toca, e acaba indo parar em um mundo fantástico, cheio de criaturas incríveis. Alice gostou tanto da história que, ao ser deixada em casa, pediu para que Dodgson escrevesse a história para ela, para que nunca mais a esquecesse. Dodgson havia inventado a história naquela hora, acrescentando mais elementos enquanto passeavam, mas mesmo assim se sentiu obrigado a atender àquele pedido, e ao chegar em casa passou a noite inteira escrevendo, transformado em livro aquela tarde tão agradável. Ao final, acrescentou algumas ilustrações, encadernou toscamente, e no dia seguinte o deu de presente a Alice, com o nome de Alice's Adventures Under Ground ("Aventuras de Alice nos Subterrâneos").

O livro ficou na casa dos Liddell, até ser visto por outro amigo de Dodgson, George MacDonald, que lhe mostrou a seus filhos, que adoraram. Desde que o havia entregue a Alice, Dodgson continuara expandindo a história, que já contava com mais de cem páginas. MacDonald então sugeriu que ele enviasse o livro para publicação, e indicou o artista John Tenniel, cartunista da famosa revista Punch, e que já tinha ilustrado uma das edições das Fábulas de Esopo, para fazer as ilustrações. Dodgson concordou, mas decidiu inventar o pseudônimo de Lewis Carroll, ao invés de publicá-lo sob seu nome original. Especula-se que este nome foi escolhido por ter o mesmo número de letras de Alice Liddell, e letras duplas nas mesmas posições, além de em "Lewis" e "Alice" as vogais e consoantes estarem em posições trocadas. Mas, como nem o próprio Dodgson jamais explicou porque escolheu se chamar Carroll, aparentemente é tudo coincidência.

A primeira edição impressa de Alice's Adventures in Wonderland ("Aventuras de Alice no País das Maravilhas"), o título pelo qual o livro seria conhecido definitivamente, saiu em julho de 1865, com uma tiragem de dois mil exemplares. Carroll e Tenniel não gostaram da qualidade da impressão, mandaram recolher tudo e encomendaram uma nova, que saiu em dezembro de 1865, mas com data de 1866. O livro se tornou uma sensação entre crianças e adultos, se esgotou rapidamente, e novas edições foram encomendadas, uma após a outra. O livro é produzido ininterruptamente até hoje, já tendo tido mais de 100 edições, e já foi traduzido para mais de cinqüenta idiomas. Um exemplar da primeira edição, a rejeitada pelos autores, foi vendido por um milhão e meio de dólares em 1998. Mesmo ainda sem saber deste futuro glorioso, o sucesso do livro fez Carroll abandonar a carreira de matemático, e se dedicar à de escritor de livros infantis. Infelizmente, nenhum de seus livros posteriores foi tão bem sucedido quanto a primeira aventura de Alice.

Alice no País das MaravilhasAlice no País das Maravilhas conta a história de uma menina de sete anos chamada Alice, que estando entediada de sua vida, decide seguir um coelho branco falante através de sua toca, e se vê perdida em um mundo fabuloso, onde os animais falam e se comportam como gente. Carroll não se preocupa com coisas como continuidade ou sentido, e simplesmente conta uma história onde os personagens vão se apresentando e as situações se sucedendo, até um clímax onde Alice descobre que tudo não passara de um sonho. Além do Coelho Branco, Alice também se encontra com o Gato de Cheshire, que está sempre sorrindo e tem o poder mágico de desaparecer; o Chapeleiro Louco e a Lebre de Março, presos em um chá da tarde infinito porque o Chapeleiro brigou com o Tempo e agora seu relógio não anda mais; a Tartaruga Falsa, dona da história mais triste do País das Maravilhas; a Lagarta, que fuma narguilé e fala de forma enigmática; a Duquesa, uma mulher muito feia cuja cozinheira adora pimenta e o filho se transforma em porco; e o Rei e a Rainha de Copas, soberanos do local, com os quais Alice participa de um estranho jogo de croquê e do confuso julgamento do Valete de Copas, acusado de roubar as tortas da Rainha. Aparentemente, a Alice do livro não é Alice Liddell, que era morena, com cabelo curto e uma franjinha, e tinha dez anos na época em que Carroll inventou a história.

Por ter sido escrito especialmente para Alice, o livro é cheio de citações que somente os moradores de Oxford, as irmãs Liddell ou os amigos de Carroll entenderiam. Os poemas que aparecem durante o texto são paródias de poemas e canções da época, muitos hoje esquecidos. Isto faz com que o livro seja considerado por muitos como "sem pé nem cabeça", e leva a múltiplas interpretações das passagens do texto, comparando os personagens com políticos, analisando-as à luz da psicanálise ou até mesmo da religião. Nos Estados Unidos há quem considere que o livro é, na verdade, uma história de terror, pois todas as criaturas tratam mal Alice, que está presa em um pesadelo onde é impotente e do qual não consegue sair, estando à mercê de uma rainha louca que manda decapitar todo mundo. Por causa disso, muitos pais não permitem que seus filhos o leiam até alcançar uma certa idade, um verdadeiro contrassenso para um livro infantil.

Cinco anos após a publicação do primeiro livro de Alice, Carroll decidiu publicar mais um, motivado por um encontro que teve com outra Alice, esta uma prima distante sua, durante um passeio em Onslow Square. Carroll já vinha escrevendo o livro desde bem antes, quando ensinava xadrez às irmãs Liddell, mas o encontro com sua prima Alice lhe deu o elemento que faltava: um espelho. Carroll conta que tinha o costume de mostrar às meninas um espelho, pedir para que elas segurassem uma laranja com a mão direita, e perguntá-las por que é que o reflexo a estava segurando com a mão esquerda. Sua prima Alice foi quem lhe deu a melhor resposta: "se eu estivesse do outro lado do espelho, a estaria segurando com a mão direita". Assim nasceu Through the Looking-Glass and What Alice Found There ("Através do Espelho e o que Alice Encontrou por Lá", também conhecido como "Alice Através do Espelho" ou "Aventuras de Alice no País do Espelho"), publicado pela primeira vez em 1871.

Seis meses após o sonho com o País das Maravilhas, Alice está brincando com suas duas gatinhas Kitty e Snowdrop, quando percebe que pode atravessar o espelho. Lá ela encontra um mundo mágico, onde tudo é ao contrário (se tem que correr muito para permanecer no mesmo lugar, mata-se a sede com um biscoito muito seco, primeiro se serve o bolo para depois cortá-lo, e outras pérolas). Os governantes do País do Espelho são dois Reis e duas Rainhas (Brancos e Vermelhos), envolvidos em um jogo de xadrez da vida real. Quando Alice manifesta à Rainha Vermelha seu desejo de também ser uma rainha, esta faz dela um peão, e promete que ela se tornará rainha tão logo alcance a última casa do tabuleiro (como um peão faria em um jogo de xadrez de verdade). Alice, então começa a atravessar o estranho País do Espelho, em sua busca pela coroa. O livro vem com um diagrama de xadrez que mostra os movimentos dos personagens do jogo capítulo a capítulo, até Alice se tornar rainha.

Alice Através do EspelhoNo geral, o livro é tão nonsense quanto o País das Maravilhas. Algumas passagens são mais coesas, em outras as coisas simplesmente mudam sem nenhuma explicação (como o trem que some quando Alice chega ao seu destino). Além das peças de xadrez, Alice também se encontra com personagens clássicos de histórias infantis da época, como os gêmeos Tweedledee e Tweedledum, o ovo gigante Humpty Dumpty, e até mesmo o Leão e o Unicórnio que ladeiam o brasão da Grã-Bretanha. O texto mais uma vez é permeado de poemas que satirizam obras famosas da época, e traz uma das obras-primas de Carroll, o Pargarávio (Jabberwocky no original), o poema mais nonsense da História, ainda assim com métrica e rima perfeitas. Falando em Carroll, um dos personagens da história, o Cavaleiro Branco, parece ter sido inspirado nele mesmo, com todos os seus maneirismos e sua tristeza por ter de abandonar Alice quando a história acaba. O livro também foi ilustrado por Tenniel, e um de seus capítulos, O Marimbondo de Peruca, foi suprimido a pedido do artista, que alegou ser incapaz de desenhar um marimbondo de peruca. No fim, Alice descobre que mais uma vez fora tudo um sonho, mas o livro deixa uma dúvida metafísica no ar: durante suas aventuras, Alice se encontra com o Rei Vermelho, que passa a história toda dormindo e sonhando com ela. No final do livro, era tudo um sonho, mas de quem? De Alice, ou do Rei Vermelho?

Através do Espelho hoje é considerado um clássico infantil, mas nunca foi tão famoso quanto seu antecessor, em parte porque muitas adaptações de Alice, como o filme de 1933 e o desenho da Disney, de 1951, "misturam" as duas aventuras, colocando personagens do País do Espelho no País das Maravilhas. Depois do espelho, Carroll deixou Alice um pouco de lado e publicou dois outros livros infantis, The Hunting of The Snark, de 1876, todo em versos; e Aventuras de Sílvia e Bruno, de 1889. Nenhum dos dois conseguiu chegar perto do sucesso de Alice, e ambos são praticamente desconhecidos. Carroll ainda publicaria um terceiro livro de Alice, The Nursery Alice, uma versão adaptada do País das Maravilhas para crianças de zero a cinco anos, publicado em 1889.

Lewis Carroll morreu em 14 de julho de 1898, em decorrência de uma bronquite. Mesmo não tendo sido especialmente genial ou reverenciado em vida, seu legado foi tão forte que hoje seus dois livros de Alice são considerados clássicos da literatura, tendo influenciado artistas como James Joyce e John Lennon. E transformaram Alice, de uma menininha comum de Oxford, em um dos ícones da ficção infantil, ao lado da Branca de Neve, Bela Adormecida e Cinderella.

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