domingo, 5 de fevereiro de 2006

King Kong

Todo mundo conhece o King Kong. Mesmo antes da refilmagem dirigida por Peter Jackson, era quase impossível encontrar uma pessoa que não soubesse, pelo menos, que ele é um gorila gigante. É claro que eu, praticamente desde que me entendo por gente, também já conhecia o personagem, mas o primeiro filme que vi com ele foi King Kong vs. Godzilla, que passou em algum canal quando eu tinha uns dez anos, já na época em que eu era fã do Godzilla. Desde então, fiquei com vontade de conhecer o King Kong "original". Uns dois anos depois, consegui assistir à refilmagem de 1976, que passou na Sessão da Tarde, mas o original mesmo eu só consegui assistir aos dezesseis anos. Ou quase, já que a cópia que tinha na locadora era colorizada por computador. Seja como for, foi depois de assistir a esta versão que eu me tornei fã também do macaco gigante e, desde então, de seus sete filmes "oficiais", eu consegui ver seis.

Enfim, como vocês devem ter adivinhado, o post de hoje é sobre King Kong. Eu ia fazer esse post logo depois de ter assistido ao King Kong mais recente no cinema, mas deu preguiça, depois eu esqueci, e só lembrei agora, quando procurava um assunto para essa semana. Mas não faz mal, antes tarde do que nunca.

O King Kong original é da idade da minha avó: foi lançado em 1933, pelos falecidos estúdios RKO, dirigido por Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, filmado em preto-e-branco (até porque não existia Technicolor), e com monstros em stop-motion, aquele método de animação que exige anos de filmagem para cada dois segundos de filme, movendo bonequinhos e filmando-os em diferentes posições quadro-a-quadro. Além de ser um ótimo filme de ação, King Kong é uma pérola do stop-motion, com uma animação surpreendente para um filme tão antigo. A história também é bem desenvolvida para um filme de monstros da década de 30, e envolve o cineasta Carl Denham (Robert Armstrong), especialista em filmar animais em cenários exóticos, partindo para uma empreitada ambiciosa: filmar na Ilha da Caveira, um local ainda não descoberto pelo homem, do qual tomou conhecimento graças a um mapa que chegou às suas mãos através de um marinheiro que encontrou a ilha por acidente. Impressionado pelo relato do marinheiro de que na ilha havia um monstro gigantesco, Denham decidiu fazer do local o cenário para seu mais recente filme. Para isso, porém, ele precisa de uma atriz, mas nenhuma aceita partir em uma viagem de navio a um local longínqüo, então ele recruta uma moça pobre, de nome Ann Darrow (Fay Wray), que está desempregada devido à Grande Depressão.

Durante a viagem (na qual apenas quem sabe que o destino é a Ilha da Caveira são Denham e o Capitão do navio), Ann e o imediato, Jack Driscoll (Bruce Cabot), acabam se desentendendo - principalmente pela superstição dele de que levar mulheres em viagens marítimas dá azar - e eventualmente se apaixonando. Ao chegar à ilha, a tripulação descobre que ela é habitada por uma tribo selvagem, que oferece sacrifícios humanos a alguma espécie de monstro contido atrás de uma muralha gigantesca. Os nativos decidem fazer de Ann o sacrifício, e ela é levada por Kong, o gorila gigante que os nativos cultuam como se fosse um deus. A tripulação então domina os nativos e atravessa a muralha atrás de Ann, enfrentando um estegossauro, um apatossauro, e até mesmo o próprio Kong.

Enquanto a operação resgate está em andamento, Kong, que nunca havia visto uma loira, se afeiçoa a Ann, e decide ficar amigo dela ao invés de matá-la. Ele até mesmo a salva de um tiranossauro, de um pterodáctilo e de uma cobra gigante. Enquanto Kong luta com a cobra gigante, Driscoll consegue salvar Ann, sendo perseguido pelo gorila. Denham então tem a brilhante idéia de capturar o monstro e levá-lo para Nova Iorque, fazendo fortuna com sua exibição.

Em Nova Iorque, porém, as coisas não saem conforme o esperado: enquanto Kong está em exibição, Ann e Driscoll anunciam seu noivado. Kong acha que os flashes das câmeras dos jornalistas são disparos de armas de fogo que matarão Ann, e se livra de suas correntes, deixando um rastro de destruição e morte pelas ruas da cidade. Ann e Driscoll fogem, mas eventualmente o gorila consegue capturar a mulher, e a leva aos berros para o topo do Empire State Building, onde é atacado e derrubado por biplanos, encontrando a morte após uma queda de centenas de metros.

Como vocês podem ver, uma obra prima, que bateu recordes de público e só não ganhou o Oscar de Melhores Efeitos Especiais porque este ainda não existia. Além de um enorme sucesso, King Kong se tornou um ícone: mesmo quem nunca viu o filme conhece pelo menos uma das cenas principais, mais notadamente a luta de Kong contra os biplanos no alto Empire State. King Kong também é um dos mais parodiados e citados filmes de todos os tempos, ganhando referências em outros filmes, programas de TV, videogames, quadrinhos e desenhos animados.

O sucesso de King Kong à época de seu lançamento levou a RKO a produzir uma continuação quase instantânea, chamada O Filho de Kong, o único que eu nunca consegui assistir, também lançado em 1933, dirigido por Ernest B. Schoedsack. Cheio de dívidas por ter sido processado pela Prefeitura de Nova Iorque por causa da destruição causada por Kong, Denham (novamente interpretado por Robert Armstrong) embarca no primeiro navio que encontra. Após um motim, Denham e alguns amigos são levados até a Ilha da Caveira e abandonados lá. Enquanto tentam sobreviver, eles descobrem que Kong possuía um filho, que além de tudo é albino. Juntos, os humanos e o filho de Kong vivem incríveis aventuras. Ou seja, diante do original, era quase um filme infantil, e teve uma recepção bem pobre, apesar de hoje em dia já ter alguns fãs.

Na década de 60, os estúdios Toho, responsáveis pelos filmes de Godzilla, compraram os direitos de Kong, e lançaram o terceiro filme do macaco, King Kong vs. Godzilla (que, por uma estranha coincidência, também era o terceiro filme de Godzilla), de 1962, dirigido por Ishiro Honda. Na verdade, este filme seria produzido por um estúdio americano, e Kong enfrentaria uma versão gigante do Monstro de Frankenstein. Graças aos Céus, quando a Toho se interessou e comprou o roteiro, substituiu Frank pelo lagartão. Este não é o único fato curioso sobre este filme: por exemplo, Godzilla tem sessenta metros de altura, e Kong apenas sete metros e meio, mas no filme eles parecem ter a mesma altura. Além disso, este foi o primeiro filme tanto de Kong quanto de Godzilla a ser filmado em cores, e Kong desta vez era um ator vestido com uma fantasia, não um boneco em stop-motion.

A história é a seguinte: um grupo farmacêutico, tomando conhecimento da Ilha da Caveira, vai até lá e captura Kong para servir de garoto-propaganda de sua marca no Japão. Enquanto Kong está por lá, Godzilla, que havia sido aprisionado no gelo no final de seu segundo filme, se liberta e ruma para destruir Tóquio. Nada mais normal, então, do que os dois monstros se enfrentarem em uma batalha épica. O tom do filme é satírico, quase comédia, em uma profunda crítica ao capitalismo desenfreado e à invasão de marcas estrangeiras no Japão.

Embora muita gente ache que Kong representa os EUA, e Godzilla o Japão, pode-se dizer que é justamente o contrário, pois, devido a seus poderes radioativos, em seus primeiros filmes Godzilla representava justamente os EUA, que atacaram o Japão com bombas nucleares durante a Segunda Guerra. Godzilla é, inclusive, o vilão do filme, e a população torce para que Kong vença e o expulse de lá.

Mas a maior curiosidade sobre este filme vem do fato de que, para ser lançado nos EUA, ele teve de ser muito editado, praticamente acabando com o tom satírico, e sendo transformado em um filme sério. Isto levou à crença de que existem duas versões, sendo que na japonesa o Godzilla "vence", e Kong "vence" na americana. Na verdade, o final de ambas é idêntico: ambos os monstros entram no mar, e Kong sai nadando para a Ilha da Caveira, enquanto Godzilla desaparece. Como ele sempre nada submerso, porém, não se pode afirmar que ele também não tenha saído nadando para algum lugar.

King Kong vs. Godzilla teve uma bilheteria gigantesca, ficou anos em cartaz, e é até hoje o filme de Godzilla de maior público na História. Isso levou a Toho a lançar uma continuação em 1967, King Kong 2 (cujo título original é King Kong Contra-Ataca, lançado nos EUA como King Kong Escapa), novamente dirigido por Ishiro Honda, desta vez em co-produção com os estúdios americanos Rankin/Bass. Neste filme, um cientista louco de nome Dr. Who (Eisei Amamoto) cria um Kong mecânico, chamado Mechanikong, para poder cavar no Pólo Norte atrás de um elemento altamente radioativo chamado Elemento X. O robô não consegue executar sua tarefa, então o cientista tem a brilhante idéia de ir até a Ilha da Caveira e hipnotizar o Kong verdadeiro para que ele faça o serviço. Eventualmente, Kong escapa e ruma para Tóquio, então Dr. Who manda Mechanikong seqüestrar a Tenente Susan Watson (Linda Miller), por quem Kong se apaixona, para atraí-lo para uma armadilha. No final do filme, Mechanikong escala a Tokyo Tower com Susan na mão, e luta contra Kong. Como se isso já não fosse o bastante, um dinossauro chamado Gorosaurus também resolve se enfiar na briga. O filme é tão trash que chega a ser engraçadíssimo.

King Kong voltaria a solo americano na década de 70, quando o produtor Dino de Laurentiis decidiu fazer uma refilmagem. "Releitura", porém, seria um termo mais correto, já que esta versão pouco tem a ver com a original, sendo inclusive ambientado na década de 70, e não na década de 30. Lançado em 1976, produzido pela Paramount, e dirigido por John Guillermin, o filme começa quando um executivo da firma Petrox Oil, Fred Wilson (Charles Grodin), descobre a Ilha da Caveira através de leituras infravermelhas feitas por satélite, que acusam uma grande quantidade de petróleo em seu subsolo. Ele então monta uma expedição para ir até lá com um navio petroleiro, que é invadido pelo paleontólogo especializado em primatas Jack Prescott (Jeff Bridges), que planeja interromper a expedição devido a um relato de um explorador que mencionou o rugido de uma grande fera ao desembarcar na tal ilha. Durante a viagem, eles encontram a náufraga Dwan (Jessica Lange), uma atriz que estava a bordo de um iate que explodiu, matando a todos menos ela. Dwan e Prescott, como era de se esperar, acabam se apaixonando.

Ao chegar na ilha, Wilson descobre que ela não tem petróleo, mas sim uma tribo se selvagens que cultua uma espécie de deus que vive do outro lado de uma gigantesca muralha. Os nativos decidem oferecer Dwan em sacrifício para este deus, que se revela ser Kong, um gorila gigante. Kong pega Dwan e entra na mata, enquanto Prescott, acompanhado de alguns funcionários da Petrox, vai atrás para resgatá-la. Enquanto Wilson planeja capturar Kong para ganhar dinheiro já que não descobriu petróleo, Kong acaba se apaixonando por Dwan, a única a tratá-lo com carinho em muitos anos. Enquanto Kong luta contra uma cobra gigante, Prescott resgata Dwan, e foge com Kong em seu encalço. Ao chegar na praia, Kong é capturado pelos funcionários da Petrox, e levado para Nova Iorque.

Enquanto é exibido em uma praça como uma aberração, Kong se enfurece com os jornalistas, e se livra de sua cela, deixando o usual rastro de destruição e morte pela cidade. Prescott e Dwan fogem, mas Kong vai atrás e seqüestra a moça, escalando uma das torres do World Trade Center. Após ser atacado por lança-chamas, Kong salta para a outra torre, onde é metralhado por helicópteros. Dwan ainda tenta salvá-lo, mas Kong cai para a morte.

Embora claramente inferior ao original, este filme dá para o gasto. Kong, em algumas cenas, é "interpretado" por Rick Baker, o famoso técnico de efeitos especiais. Em outras, como quando aparece só o rosto ou só o braço, é um animatronic. Na época do lançamento, foi um grande sucesso, e recebeu muitas críticas favoráveis, ganhando uma "versão estendida" em 1982.

Mas talvez o mais curioso sobre a versão de 1976 é que ela tem uma continuação, produzida pela mesma equipe, e lançada dez anos depois, em 1986. King Kong 2 (cujo título original é King Kong Vive) começa exatamente de onde o outro parou, com cientistas pegando o corpo de Kong e colocando-o em coma induzido para que ele não morra. Após dez anos, porém, Kong precisa urgentemente de uma transfusão de sangue, ou morrerá. Milagrosamente, é encontrada uma gorila gigante fêmea em uma floresta tropical, e, com seu sangue e um coração mecânico, Kong vive novamente. Infelizmente, ele escapa do complexo médico, destruindo tudo em seu caminho, e tentando procriar com a gorila fêmea. Com razão, este é considerado o pior de todos os filmes de Kong, e talvez a única coisa boa nele é que era estrelado por Linda Hamilton, que dois anos antes tinha interpretado a Sarah Connor do Exterminador do Futuro.

A mais recente versão de King Kong é a do ano passado, do diretor Peter Jackson, que conseguiu realizá-la graças ao prestígio que obteve após a trilogia do Senhor dos Anéis. Tendo assistido ao King Kong original aos nove anos de idade, Jackson sempre sonhou em fazer sua própria versão do filme. Talvez por isso, essa versão é extremamente fiel à original, tendo apenas mudado uma coisinha ou outra, e acrescentado alguns novos personagens. Talvez o mais curioso seja que ela tem 187 minutos de exibição, enquanto a original tem apenas 100 minutos.

Produzido pela Universal Pictures, o filme é ambientado na década de 30, e a história é essencialmente a mesma, com algumas modificações, como Carl Denham (Jack Black) não saber que Kong existe antes de chegar à ilha, e decidir capturar Kong apenas depois que seu maravilhoso filme é arruinado; Jack Driscoll (Adrien Brody) é um famoso escritor e dramaturgo, e não o imediato do navio; e Ann Darrow (Naomi Watts) é uma atriz talentosa, que fica desempregada porque seu teatro fecha, e conquista Kong com truques teatrais, e não por sua beleza. Ann, inclusive, também se afeiçoa a Kong nesta versão, chegando a tentar salvar sua vida no final do filme. Fora isso, o filme tem seqüências de ação mais longas, um melhor desenvolvimento dos personagens secundários, como a tripulação do navio e a equipe de filmagem, e a infame cena em que a equipe de resgate é atacada por insetos gigantes, que fazia parte do filme original mas foi cortada antes do lançamento. Todas as cenas clássicas estão presentes, como a luta de Kong contra um tiranossauro, e o final onde ele enfrenta biplanos no alto do Empire State Building. Muitos dos diálogos do filme, como o final, também são idênticos, e outros são "homenagens" ao filme original. Kong desta vez é totalmente criado em computador, modelado sobre os movimentos do ator Andy Serkis, que estudou o comportamento dos gorilas em Ruanda para se preparar para o papel.

Talvez a maior prova de que King Kong seja um ótimo filme seja justamente a quantidade de versões e refilmagens que já foram feitas até hoje. Mesmo sendo o vilão do filme de 1933, Kong se tornou tão popular que na versão de 2005 ele é o herói. Maior sucesso para um gorila gigante, não há.

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