domingo, 4 de setembro de 2005

Zhang Ziyi

Desde criança, eu sempre fui fascinado pelo Japão. Para a China, por outro lado, eu nunca dei muita bola. No máximo, assiti a um ou outro filme de wuxia que passava na Bandeirantes, a quase todos os do Jackie Chan e a todos os do Bruce Lee, a quem passei a admirar depois de assitir a Dragão, sua biografia em forma de filme. De uns seis meses para cá, passei a me interessar mais pela cultura chinesa, o que me levou à descoberta de filmes, mitos e histórias bastante interessantes. Nada ainda capaz de rivalizar meu interesse pelo Japão, mas confesso que já não sou mais indiferente à Terra dos Mandarins. Se há uma responsável por essa mudança, é uma jovem atriz, de nome Zhang Ziyi.

O primeiro filme no qual eu vi Ziyi deve ter sido o mesmo no qual todo não-chinês também a viu pela primeira vez, O Tigre e o Dragão, que eu fui assistir no cinema pura e simplesmente por ser um filme de wuxia, e como eu nunca havia visto wuxia no cinema, me entusiasmei. Aliás, como eu já usei essa palavra três vezes, cabe explicar o que ela representa: um filme de wuxia é aquele estilo de filme de artes marciais chinês, no qual os personagens rasgam as leis da física e jogam pela janela, dando saltos maiores que casas, correndo pelas paredes ou lutando empoleirados nas copas das árvores. Para quem não faz questão de um filme realístico, é tudo muito divertido.

Enfim, Ziyi estava em O Tigre e o Dragão, mas o máximo que eu achei dela foi que era muito bonita. A história foi diferente, porém, com o segundo filme dela que eu vi, O Clã das Adagas Voadoras. No papel de uma artista marcial e dançarina cega, Ziyi dá um show de interpretação. Se você acha que boa interpretação não combina com artes marciais, preste atenção na moça. De vez em quando parece que ela é cega de verdade. Tamanho talento, mais o fato de ser a chinesa mais bonita que eu já vi na vida, me transformaram naquele momento em um fã de Ziyi. Por tabela, ler sobre sua vida, suas entrevistas, e ver seus outros filmes acabaram por aguçar minha curiosidade quanto à China como um todo. É a prova de que celebridades internacionais ajudam a divulgar seu país.

Zhang Ziyi (se pronuncia jâng zií; além disso, em chinês, assim como em japonês, o sobrenome vem primeiro, portanto, o nome dela é Ziyi, e o sobrenome é Zhang) nasceu em 9 de fevereiro de 1979 em um bairro para a classe operária de Pequim, onde vive até hoje com seus pais, um economista e uma professora de jardim da infância aposentada. Ela tem ainda um irmão mais velho, algo raríssimo na China, onde 99% dos casais só têm uma criança. Desde cedo, Ziyi demonstrou interesse pela dança, o que levou seus pais a matricularem-na na Academia de Dança de Pequim quando tinha 11 anos. Se especializando em danças folclóricas, sua carreira como dançarina foi bastante bem-sucedida, chegando a lhe render vários prêmios, inclusive o prêmio máximo na Quarta Competição Anual Nacional para Jovens Dançarinos, de 1994. Ainda assim, Ziyi sentia que sua carreira poderia ser breve, e aos 17 anos decidiu fazer um teste vocacional promovido pelo governo. O resultado dizia que ela tinha talento para a carreira de atriz.

Animada, Ziyi decidiu tentar uma vaga na concorridíssima Academia Central de Artes Dramáticas da China e, para espanto de sua família, foi aceita de primeira. Quando estava apenas em seu segundo ano na Academia, Ziyi foi selecionada para um teste - não para um filme, ainda, mas para um comercial de xampu. O diretor deste comercial, porém, era ninguém menos que Zhang Yimou, um dos mais premiados diretores da história da China (e de quem Ziyi não é parente, apesar do mesmo sobrenome). Yimou utilizava esta "técnica", de aceitar dirigir comerciais, para descobrir talentos para seus próximos filmes. Ziyi não foi selecionada desta vez, mas sua beleza impressionou o diretor, que guardou seu nome.

Seis meses depois, quando Yimou precisava de uma atriz para mais um filme, ele imediatamente se lembrou de Ziyi, que foi chamada e fez um teste, que lhe rendeu nada menos que o papel de protagonista em The Road Home, de 1999, sua estréia no cinema. No papel de uma estudante adolescente da zona rural apaixonada por seu professor, Ziyi foi aclamada pela crítica, que, apesar disso e maldosamente, colocou nela o apelido de "pequena Gong Li". Explica-se: Gong Li é uma atriz chinesa, talvez a mais famosa antes de Ziyi aparecer, protagonista de Lanternas Vermelhas, o mais aclamado filme de Yimou. Apesar de muito talentosa, Li teve um relacionamento amoroso com o então casado Yimou, o que lhe rendeu papéis em praticamente todos os filmes do diretor, e a desconfiança de que sua carreira só existia por causa desse affair. O romance acabou em 1995, mas Li ficou marcada para sempre.

Assim, quando a lindíssima porém desconhecida Ziyi apareceu como protagonista de The Road Home, enquanto a outrora preferida Li era apenas coadjuvante, imediatamente surgiram rumores de que ela seria a nova namorada de Yimou, e conseqüentemente protagonista de seus próximos filmes. Tanto Ziyi quanto Yimou (que tem praticamente o dobro de sua idade) negaram qualquer relacionamento extraprofissional, mas mesmo assim, para não prejudicar a carreira da moça, Yimou decidiu não chamá-la para seu filme seguinte. Ziyi, por sua vez, retormou à Academia. Afinal, ela ainda nem havia concluído o curso.

Um ano após seu retorno, porém, Ziyi recebeu um novo convite, desta vez de outro premiado diretor, Ang Lee, para seu novo filme O Tigre e o Dragão, de 2000. A princípio, Lee havia pensado na atriz e modelo taiwanesa Hsu Chi para o papel da aristocrata Jen, mas após ver o desempenho de Ziyi em The Road Home maravilhou-se, e decidiu que o papel tinha que ser dela. Depois das filmagens, Lee ainda declarou que a atuação de Ziyi havia superado até mesmo suas expectativas. O Tigre e o Dragão se tornou o filme chinês mais bem-sucedido da história, e o filme estrangeiro de maior bilheteria nos EUA, rendendo a Ziyi o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante da Associação de Críticos de Cinema de Toronto, e um Mtv Movie Award de Melhor Cena de Luta.

Com a carreira definitivamente alavancada, Ziyi se viu obrigada a abandonar a Academia de vez no ano seguinte, quando recebeu um convite do diretor Brett Hatner para fazer um filme em Hollywood, no caso, A Hora do Rush 2, de 2001, continuação de um grande sucesso de Jackie Chan e Chris Tucker. Coincidentemente, aliás, o primeiro A Hora do Rush havia sido o primeiro filme em Hollywood de Jackie Chan, outro grande ídolo da China. Ziyi ganhou o papel de uma vilã mesmo sem falar uma única palavra de inglês; no filme ela só fala em chinês, e Jackie Chan teve de servir como intérprete, para que ela compreendesse as instruções do diretor.

Retornando à China, e com uma provável carreira internacional por vir, Ziyi passou a se dedicar a aulas de inglês, enquanto fazia seus próximos filmes, ambos de 2001: The Legend of Zu, do diretor Hark Tsui, e Musa (previsto para estrear aqui em breve com o título A Princesa do Deserto), de Sung-su Kim, onde mais uma vez Ziyi tem um papel-chave. Com as críticas maldosas da imprensa afastadas de vez, Ziyi foi convidada para mais um filme de Yimou, Herói, desta vez em um papel secundário, mas que a levou mais uma vez para os cinemas internacionais.

Ziyi seria mais uma vez protagonista em Purple Butterfly, dirigido por Lou Ye, e teria um pequeno papel em Jopog Manura 2: Dolaon Jeonseol, de Heung-sun Jeong, ambos de 2003, antes de chegar a O Clã das Adagas Voadoras, mais recente filme de Zhang Yimou, de 2004, onde faz a protagonista e ainda canta a música principal, talvez na melhor atuação de sua carreira. Depois do Clã, Ziyi voltaria a dividir a tela com Gong Li - mas desta vez ao inverso, com Li como protagonista e Ziyi como coadjuvante - em 2046, filme de 2004 dirigido por outro dos maiores diretores chineses da atualidade, Wong Kar Wai, e aclamado internacionalmente. Ainda em 2004, Ziyi seria mais uma vez protagonista em Jasmine Flower (também previsto para estrear aqui em breve, com o título Perfume de Jasmin), filme de Yong Hou no qual ela interpreta não uma, mas três mulheres, mãe, filha e neta, conforme o filme conta a saga de três gerações de uma mesma família.

A esta altura já considerada uma das melhores atrizes chinesas de todos os tempos (algo impressionante para alguém de apenas 25 anos), Ziyi foi convidada para mais filmes internacionais em 2005. O primeiro, Princess Raccoon, era um musical japonês dirigido por Seijun Suzuki. A impressionante Ziyi não apenas era a protagonista, como também cantava em japonês. Atualmente, Ziyi está rodando seu segundo filme hollywoodiano, Memórias de uma Gueixa (que deve estrear aqui no ano que vem), de Rob Marshall, desta vez como protagonista, e no qual mais uma vez ela faz o papel de uma japonesa, mas tendo que falar em inglês com sotaque japonês - algo que deve ser meio ingrato para uma chinesa. Seu próximo filme rodado na China, Ye Yan, de Xiaogang Feng, já está em pré-produção, e deve ser lançado em 2006. Neste, porém, Ziyi faz um papel pequeno.

Um fato curioso sobre Ziyi é que ela jamais aprendeu artes marciais. Apesar da maioria de seus papéis ser centrado em lutas, todas são coreografadas, e o motivo pelo qual ela consegue "fingir lutar" tão bem é seu treinamento como dançarina - muitas vezes ela insere passos de dança no meio das coreografias, o que só torna as lutas mais bonitas.

Além de sua extremamente bem-sucedida carreira cinematográfica, Ziyi é a garota-propaganda oficial para o extremo oriente e sudeste asiático dos cosméticos Maybelline, do xampu Pantene, da Coca-Cola e dos relógios Tag Heuer. Este ano ela esteve na festa do Oscar, apresentando o prêmio de Melhores Efeitos Visuais ao lado de Jake Gyllenhaal. Apesar de tanto sucesso, Ziyi continua sendo uma pessoa simples, morando no mesmo bairro, tendo seu irmão como empresário, e se mantendo com os pés no chão em relação à sua carreira internacional - afinal, não é todo dia que surgem bons papéis para asiáticos em Hollywood.

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