domingo, 29 de maio de 2005

Xadrez Chinês

Como eu relatei aqui em meu post sobre o ludo, quando eu era bem pequeno, ganhei de presente uma caixa com quatro jogos dos que hoje são chamados "clássicos": damas, ludo, xadrez chinês e o jogo do chapéu (este, infelizmente, quase desapareceu do mercado, tendo sido substituído neste tipo de caixa pelo jogo de trilha). Dos quatro, o que eu mais gostava era o ludo, mas o que eu achava mais interessante era o xadrez chinês. Em minha ignorância infantil, eu imaginava que os chineses achavam o xadrez tradicional muito complicado, e haviam decidido criar uma variação mais simples. Era uma explicação satisfatória, ao que me parece.

Porém, se a gente parar para pensar, por que este estranho jogo se chama xadrez chinês? Não tem nada a ver com xadrez, e ainda por cima seu nome em inglês é chinese checkers, que traduz como damas chinesas, embora também não tenha nada a ver com damas. Na verdade, não tem nada a ver com jogo nenhum, então por que não colocaram um nome novo nele? Para ser franco, eu nunca tinha parado para refletir sobre estas perguntas, até que decidi escrever aqui no átomo um post sobre o gamão. Procurando a origem do jogo, achei um site que também falava sobre a origem do xadrez chinês. Achei até interessante, mas um pouco incompleto. Enquanto escrevia o post sobre o ludo, decidi pesquisar mais sobre este jogo que fez parte de minha infância, e o resultado está aí embaixo: um post sobre o Xadrez Chinês.

Versão para 6 jogadores


Creio que muitos devem ter jogado xadrez chinês na infância, e se lembram de suas regras. Se não, não custa nada explicá-las aqui, já que mais fácil é impossível. Em sua versão mais básica, o xadrez chinês é um jogo para três pessoas, com um tabuleiro em formato de estrela de seis pontas. Cada jogador controla quinze peões, que começam o jogo numa das pontas da estrela, e devem terminar na ponta imediatamente oposta. Tradicionalmente, as cores dos peões são azul, verde e vermelho, e tanto a ponta de "saída" quanto a de "chegada" possuem a mesma cor dos peões daquele jogador, sendo o "meio" da estrela branco. Os jogadores não começam o jogo todos do mesmo lado da estrela, mas dois de um lado e um do outro, para facilitar a arrumação dos peões. Além desta versão de três jogadores, existe outra, muito popular nos EUA, que serve para até seis jogadores, onde cada jogador controla apenas dez peões, e cada ponta da estrela possui uma cor diferente. O objetivo de chegar com seus peões na ponta imediatamente oposta permanece.

Xadrez chinês tradicionalComo já foi dito, o objetivo é sair de uma das pontas e chegar até a ponta imediatamente oposta, ou seja, aquela que está de frente com a ponta de onde você está saindo. Para isso, você pode mover seus peões de duas formas, andando ou pulando. Ambos os movimentos fazem uso de linhas traçadas no tabuleiro, que interligam suas 121 casas. O movimento só é considerado válido se tanto a casa onde o peão estava quanto aquela onde ele foi parar estiverem interligadas por uma destas linhas. Xadrez chinês não usa dados, mas turnos. Em outras palavras, cada jogador possui uma "vez" de jogar, e nesta vez poderá mover apenas um de seus peões. Após fazer seu movimento, o jogador passa a vez para o seguinte, e assim sucessivamente.

Andar é muito simples: basta mover o peão para a casa seguinte. Pular também é simples, e mais proveitoso: se houver um outro peão - seu ou do adversário, não importa - entre você e uma casa vazia, você pode pulá-lo com o seu, efetivamente andando duas casas ao invés de uma. Somente um único peão pode ser pulado de cada vez, e neste jogo ninguém "come" ninguém, ou seja, o peão pulado continua ali, sem acontecer nada com ele. Você pode mover seus peões para a frente, para trás e para os lados, inclusive "entrando" nas pontas da estrela que pertencem aos adversários. O importante é colocar todos eles na ponta de chegada, pois o primeiro jogador que fizer isso será o vencedor.

Pois bem, como pudemos ver, não tem nada a ver com xadrez. Isto ocorre porque este jogo é uma variação do jogo grego conhecido como halma, palavra que significa "pulo". O jogo de halma, para dois jogadores, foi criado na Grécia em 1880, e se tornou rapidamente popular na Inglaterra e Suécia. Para apenas dois jogadores, seu tabuleiro é quadrado, com 49 casas, e cada jogador controla dez peões, que começam o jogo em áreas diametralmente opostas. O objetivo do jogo é "invadir" a área de saída do adversário, colocando todos os seus dez peões nos lugares onde deveriam estar os peões do adversário. Em cada truno, um jogador pode andar uma única casa com um peão seu, ou saltar sobre outro peão (daí o nome do jogo), efetivamente andando duas casas. Este salto não tira peões adversários do jogo, e pode ser feito sobre seus próprios peões.

HalmaEm 1883, três anos depois do lançamento do halma na Suécia, começaram a surgir as versões para três jogadores, com um tabuleiro em formato de estrela ao invés de quadrado, já que aparentemente ficava muito confuso colocar mais de dois jogadores no pequeno tabuleiro do halma. Este novo jogo foi patenteado com o nome de Stern-Halma ("stern" significa "estrela", por causa do formato do tabuleiro).

Em 1928, o empresário J. Pressman decidiu levar o Stern-Halma para os EUA. Esse nome, união de uma palavra em grego com uma em sueco, não lhe pareceu atraente para o produto. Pressman, então, decidiu criar um nome que chamasse a atenção para um jogo novo e exótico. Ele decidiu chamá-lo de Chinese Checkers, ou damas chinesas. Damas porque as peças pulam umas por cima das outras, como no jogo de damas. Chinesas porque era exótico. Pois é, é esdrúxulo, mas é a verdade. Embora o jogo só tenha chegado na China em 1941, quase 60 anos após sua invenção, ficou internacionalmente conhecido como um jogo chinês.

Aqui no Brasil, o jogo foi traduzido para xadrez chinês também por um motivo comercial. Os primeiros exemplares do jogo começaram a aparecer na década de 50, e "damas chinesas" não parecia um bom nome para um jogo para crianças. Atualmente, vários fabricantes e jogadores já estão adotando o nome damas chinesas, para evitar confundir o jogo com o Xiang Qi, iternacionalmente conhecido como chinese chess, ou xadrez chinês. Este sim foi inventado na China, e se parece com o xadrez "normal", com cada peça possuindo uma hierarquia e movimento próprio, e tendo um tabuleiro quadriculado, semelhante ao do jogo japonês Go.

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