domingo, 19 de dezembro de 2004

Alien

Meus dois estilos preferidos de filmes são ficção científica e horror. Horror, notem bem, não terror. Coisas como O Chamado, Poltergeist, Stephen King. Isso é horror. Jason estripando todo mundo é terror. Ou talvez carnificina. Enfim, na junção destes dois estilos agradáveis, fica um filme que eu adoro, pois além de juntar ficção científica e horror dos bons, e ser dirigido por Ridley Scott, o homem que mais tarde colocaria Blade Runner no mundo, ainda tem um vilão criado por H. R. Giger, um de meus artistas preferidos. Você pode não estar ligando os nomes às pessoas, mas sabe de qual filme eu estou falando. Alien.



Alien é um filme completamente sui generis, e eu acho que é aí que ele se torna interessante. Para começar, foi lançado em 1979, no fervilhar causado por Star Wars e Tubarão. Inclusive, muitos críticos da época diziam que o filme era uma mistura dos dois, embora não tenha absolutamente nada a ver com nenhum deles. A premissa era interessante: um tipo de casa mal-assombrada espacial, uma nave onde seus tripulantes teriam de lidar com um horror desconhecido. Obrigados a investigar um planeta onde ocorreu um acidente, mesmo sem estarem devidamente equipados para isso, os tipulantes da Nostromo (eu adoro esse nome) acabam trazendo para bordo um convidado inesperado. Hoje todo mundo sabe o que é, mas na época o monstro foi guardado a sete chaves - tudo pelo bem das surpresas do filme. Eu não pude ter o prazer de assisti-lo no cinema, mas mesmo em vídeo, e anos após o lançamento, eu tomei uns bons sustos. E conhecendo a cara do bicho.

Até aí, podem argumentar, nada de mais. Filmes de casa mal-assombrada existem aos borbotões, esse só troca a casa por uma nave. Pode ser. Mas o slogan do filme era "no espaço, ninguém pode ouvir você gritar". Na maioria dos filmes de terror, os pré-cadáveres têm para onde fugir, apenas não conseguem. Como se foge para o espaço? E mais, o segredo mantido em torno da criatura maximizou o suspense do filme a um ponto até então jamais visto. Sim, porque nos primeiros 45 minutos de projeção não acontece absolutamente nada de anormal. Os tripulantes acordam de sua animação suspensa, religam a nave, tomam seu cafezinho, conversam, lêem jornal. Um longo e proposital prólogo, onde o intuito é relaxar os espectadores, que já foram para o cinema tensos. Só para assustá-los de novo depois (em tempo, o final de O Chamado so é bom do jeito que é por causa dessa técnica. Um dia eu falo disso).

Então, quando você já está confortável na sua cadeira pensando "pô, esse Ridley Scott é o maior enganador, esse filme nem tem nada de pavoroso", a Nostromo recebe o chamado (trocadilho não-intencional), e Kane é infectado. É um sustinho, mas nada de mais. Logo o parasita morre, sabe-se-lá-o-porquê, e Kane está bem novamente. Até a larva pular para fora de seu peito. Essa é uma daquelas cenas que, como eu li em algum lugar, "once seen, can never be unseen" (uma vez vista, jamais pode ser "desvista"). Hoje aliens pulam para fora do peito de todo mundo em tudo o que é filme, mas a primeira vez ninguém esperava. Confesso que nem eu.

A partir daí é que o filme se torna único, coisa jamais vista. O personagem principal sempre sobrevive, certo? Pense de novo. Hoje em dia todo mundo considera a Tenente Ripley de Sigourney Weaver como a protagonista, mas não é isso que a primeira metade do filme dá a entender. Até ali, para todos os efeitos, o capitão Dallas era o personagem principal, e Ripley era apenas mais uma tripulante. Aliás, na época, ninguém iria achar que uma garota (mesmo uma garota de 1,82m) seria a única a enfrentar cara-a-cara um bicho asqueiroso e sobreviver.

Ah, sim, o bicho asqueiroso. No início, ele quase nunca aparece, é como um vilão subjetivo. Quando resolve aparecer, porém, rouba todas as cenas. Preto em uma nave escura, todo mundo faz a maior força para ver o alien da forma mais nítida possível. Como se ele já não fosse propositalmente parecido com uma cruza de inseto e humano, ainda era praticamente invulnerável, babão, e com sangue ácido. Chega uma hora em que a gente já está achando que ele vai matar todo mundo e o filme vai acabar por falta de personagens.

Bom, concluindo, eu não vou contar o filme todo, até porque é mais do que óbvio que Ripley enfrenta o alien e sobrevive para contar a história. Mas já deu para pegar a idéia de que Alien foi um marco na história do cinema. Até mesmo o nome em português é uma pérola, Alien: O Oitavo Passageiro, já que os tripulantes originais da Nostromo são sete. O único efeito colateral deste título foi que todo mundo ficou se referindo ao bicho como "o Alien", como se esse fosse o nome dele, mas não é. O bicho criado por Giger não tem nome, e é baseado nos biomecanóides, uma "raça" de seres que misturam partes biológicas e mecânicas, presentes em alguns dos trabalhos do artista (a alienígena Sil, do filme A Experiência também é inspirada nos biomecanóides). Os fãs costumam se referir aos aliens como xenomórficos, mas este não é um nome oficial. Mesmo sem nome, o alienígena babento conseguiu se tornar figurinha fácil em muitos e muitos filmes de sátira, jogos de videogame, histórias em quadrinhos, enfim, praticamente se tornou parte do imaginário popular.

Alien teve três continuações, sendo só a imediatamente seguinte realmente boa. Lançada em 1986, e desta vez dirigida por James Cameron, Aliens (aqui chamado de Aliens: O Resgate) mostra a Nostromo sendo resgatada, tendo Ripley, em animação suspensa, como a única sobrevivente. Na Terra, ela descobre que o planeta onde o primeiro alien foi encontrado foi colonizado pelos humanos, e que nós perdemos contato com eles há algum tempo. Sabendo o que pode vir pela frente, Ripley reúne uma força-tarefa e parte para erradicar os aliens e salvar os pouco prováveis sobreviventes. Desta vez não é um filme de horror, mas sim um senhor filme de ação, quase guerra. Se um alien já era ruim, imagine trezentos, dos mais variados tamanhos. A cena final, em que Ripley enfrenta a rainha "munida" de um robô-empilhadeira, é antológica.

Depois disso, virou bagunça. Em 1992, agora dirigido por David Fincher, chegou aos cinemas Alien3, praticamente uma ofensa ao primeiro filme. Teoricamente, a idéia era resgatar o clima de horror do original (até foi parcialmente bem sucedido, a seqüência das portas fechando pro bicho não entrar é uma tensão só) mas eu acho que até eu teria escrito um roteiro melhor se tivessem me pedido. Teoricamente, Ripley e seus amigos exterminaram todos os aliens do universo, menos um, em forma embrionária, que se infiltrou na nave, danificou os sistemas, fazendo com que ela ficasse à deriva, e ainda infectou o cachorro da nave. A-han. A nave cai em um planeta prisão, cheio de assassinos e estupradores. Como o alien sai de um cachorro, ele é quadrúpede e meio diferente. Isto significa que todos os aliens que vimos antes tinham saído de humanos? Se um alien sair de um pombo poderá voar? Bem, deixa isso para lá. O que interessa é que, depois que vários assassinos e estupradores estão mortos, Ripley descobre que também foi infectada, e carrega em seu ventre uma larva de rainha. No fim, Ripley se sacrifica para impedir que o monstro nasça, e terminar a série de uma vez por todas.

Quem dera. A próxima seqüência, Alien: A Ressurreição, de 1997, dirigido pelo francês Jean-Pierre Jeunet, é uma ofensa ao primeiro filme. 200 anos após a morte de Ripley, uma megacorporação decide cloná-la, buscando ressucitar a rainha que havia em seu ventre para criar aliens em escala industrial com fins militares. Tem como dar certo? Pois é. Entre outros efeitos colaterais, o DNA de Ripley se mescla ao da rainha, fazendo com que ela tenha superforça e sangue ácido; e os aliens criados pela corporação fogem e começam a matar todo mundo. Cabe a Ripley e a alguns contrabandistas espaciais que estavam de passagem (um deles Winona Ryder) destruirem os aliens e a rainha antes que a nave chegue à Terra, o que poderia causar a extinção de toda a humanidade. Este filme é composto de um monte de coisas ruins, mas a pior de todas foi reservada para o final: assim como o DNA da rainha se misturou com o de Ripley, o de Ripley se misturou com o da rainha, fazendo com que ela dê a luz (com parto e tudo, ao invés de ovos, que é a maneira tradicional pela qual os aliens se reproduzem) a um estranho híbrido de humano e alien, ao qual Ripley se afeiçoa como se fosse sua mãe, mas deve matar para que a raça humana não pereça. Fala sério.

Bem, mas são equívocos que não tiram o brilho dos dois primeiros filmes. Existem rumores de que Ridley Scott teria aceitado dirigir um provável Alien 6, para colocar as coisas nos eixos, mas são apenas boatos (o "Alien 5" seria Alien vs. Predador, que estreou este ano nos cinemas, mas eu não vou comentar aqui porque não acho que faça parte da série original). Seja como for, talvez fosse melhor deixar o bicho babento quieto. Ou deixá-lo como coadjuvante, igual em AvP. Dá menos raiva.

1 enfiaram o nariz:

Chikane Himemiya disse...

Agora teremos Aliens Colonial Marines , baseado em escritos originais de Scot e Cameron

12:32 AM

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