domingo, 4 de abril de 2004

Lenda do barômetro

continuem lendo e vocês entenderão o porquê dessa figura


Minha adolescência foi um tanto quanto tumultuada. Para os que não sabem, eu estudei no CEFET, e posso dizer que tive um choque cultural ao sair de meu pequeno colégio para aquele mundo. Apesar disso, foi a melhor época da minha vida. Dela, sobraram bons amigos, excelentes lembranças, e um punhado de histórias interessantes.

Infelizmente, o mundo está cheio de gente burra. Talvez por termos muita tecnologia "ajudando" as pessoas em seu dia-a-dia, talvez por um ensino deficitário, talvez por pura preguiça, as pessoas estão se esquecendo de como se raciocina. Outro dia (para ser mais específico, terça-feira), pensando nisso, lembrei de uma destas histórias interessantes da minha época de CEFET. Provavelmente o núcleo da história não aconteceu no CEFET (embora nunca se possa saber com certeza), mas foi um professor meu que a contou, para a minha turma, logo após passar um trabalho (diga-se de passagem dificílimo). Na época, eu achei a história tão fantástica que a primeira coisa que fiz ao acabar a aula foi transcrevê-la para o meu caderno, para não esquecê-la. Mais tarde, a transformei numa espécie de conto, o qual disponibilizarei hoje, para seu deleite e prazer! Alguns já podem até conhecê-la, mas histórias foram feitas para serem contadas, senão morrem e desaparecem.

Portanto, acomodem-se em suas cadeiras, relaxem, e divirtam-se. Como diria o Rá-Tim-Bum, senta que lá vem história!

A Lenda do Barômetro


Certa vez, um professor de eletrônica passou um trabalho aos seus alunos: eles deveriam projetar um circuito que medisse uma certa grandeza física, como velocidade do vento, pressão atmosférica, ou outra qualquer. Um dos alunos, que era repetente, brincou dizendo que iria reapresentar o trabalho do ano passado, e outros fizeram cara feia, dizendo que iriam pegar algum manual na biblioteca e copiar de lá. Afinal, o trabalho era muito difícil, e ninguém queria perder pontos. Porém, um dos alunos foi sensato: se aproximou do professor e fez uma pergunta:

- Mestre, de que irá nos servir este trabalho? Ele quase não usará o que aprendemos até agora, portanto, não servirá como estudo. Em nossos empregos futuros, dificilmente um de nossos patrões pedirá que construamos algo semelhante, logo, não serve de treino. E além do mais, em qualquer manual da biblioteca setorial encontraremos projetos semelhantes, basta copiar, logo, não serve como exercício...

- Mas aí é que está - retrucou o professor. Eu não quero exercitar sua capacidade de projetar - e, vendo que a sala estava em enorme bagunça, completou - Sentem-se todos, vamos ouvir uma historinha.

É claro que ninguém gostou muito da idéia. Ouvir historinha? Será que ele pensa que somos do primário? Mas, mesmo assim, estimulados por alguns curiosos, até os mais bagunceiros sentaram-se em silêncio para ouvir. Então, o professor começou:

"Uma vez, eu conheci um professor de física que contou-me uma estória interessante. A época das provas havia chegado, e ele propôs a seguinte questão: 'como você mediria a altura de um prédio com o auxílio de um barômetro?'. Um barômetro é um aparelho que mede pressão atmosférica, e a pressão é menor à medida que nos afastamos do nível do mar, logo, bastaria medir a pressão no solo, na frente do prédio, medi-la novamente no topo do prédio, tirar a diferença, e, através de uma tabela, calcular a altura do prédio. Tudo bem. Porém, na hora de corrigir as provas, ele encontrou a seguinte resposta: 'eu amarraria o barômetro em uma trena e jogaria do alto do prédio. Quando o barômetro se espatifasse no chão, eu veria qual número estaria na trena, e calcularia a altura do prédio'. O professor achou aquilo estranho, mas, afinal, não poderia dar zero, já que o aluno realmente mediu a altura do prédio. Assim, ele levou a prova a um colega de profissão, para pedir sua opinião.

O outro professor também achou a resposta interessante, e propôs:

- Faz o seguinte ? Aplique um teste na classe e repita a pergunta, só para ver o que ele responderá.

Dito e feito, no bimestre seguinte o professor aplicou um teste, e repetiu a pergunta. Na hora de corrigir, lá estava a resposta, do mesmo aluno: 'eu soltaria o barômetro lá de cima do prédio, cronometraria o tempo que ele levaria para se espatifar, e, através do peso do barômetro calcularia sua aceleração, sua velocidade, e de posse desses dados, a altura do prédio'.

Novamente ele não poderia dar zero, já que o aluno novamente mediu a altura do prédio. E novamente ele levou a prova para a coordenação. O coordenador examinou e determinou:

- Traga-o aqui para que descubramos porque ele está dando estas respostas.

Alguns dias depois, o aluno estava frente ao professor e ao coordenador, que lhe perguntaram:

- Meu filho, nós achamos suas respostas muito interessantes, mas, infelizmente, não era o tipo de resposta que nós esperávamos. Você poderia nos responder uma coisa?

- Pois não, professor?

- Você não conhece nenhuma outra maneira de se medir a altura do prédio?

- Sim, claro que eu conheço: Basta medir a altura do barômetro e ir escalando o prédio, contando quantos barômetros cabem na extensão do prédio. Daí é só multiplicar e descobrir a altura do prédio.

Abismado, o coordenador não sabia o que dizer. Por fim, resolveu perguntar:

- Mas você não conhece nenhuma outra maneira de se medir a altura do prédio, alguma que você não precisasse escalar o prédio pelo lado de fora?

- Claro que eu conheço. É muito simples, olhem só: de posse da altura do barômetro, eu o colocaria do lado do prédio em um dia de sol. Aí eu mediria a sombra do barômetro e a sombra do prédio, e, por semelhança de triângulos, obteria a altura do prédio.

Os professores não sabiam o que dizer. Já haviam perdido as esperanças. Pacientemente, o coordenador tomou fôlego e perguntou:

- Meu filho, veja bem. Você não conhece nenhum método mais fácil do que estes? Algum que não requeira contas complicadas e condições específicas?

- Ah, mas por que você não disse logo? É claro que eu conheço um método muito mais fácil!

Os professores voltaram a se animar. Será que finalmente ele havia percebido?

- Basta pegar o barômetro, ir até o apartamento do zelador, bater na porta e dizer: 'se você me disser a altura deste prédio eu te dou um barômetro novinho!'"

A turma caiu na gargalhada. Alguém até chegou a comentar "que cara burro", mas o professor replicou:

- Burro não, ele até era muito inteligente. Logo depois, o coordenador o perguntou se ele conhecia o método tradicional, e ele respondeu que sim, e explicou como ele mediria a altura do prédio em relação à pressão atmosférica. O professor então perguntou por que ele não havia respondido isso logo, tinha perdido tempo inventando todos aqueles métodos, no que ele respondeu: "eu não respondi desta maneira porque era exatamente o que vocês esperavam que eu respondesse. Esta era uma questão muito fácil, e eu não estou na escola para decorar, e sim para aprender, para exercitar minha inteligência e minha criatividade. Inventando milhares de métodos alternativos, eu aprendi muito mais do que lendo um capítulo do livro e repetindo exatamente o que estava lá."

Todos olharam perplexos para o professor enquanto ele concluía sua história.

- Vocês entenderam? É exatamente isso o que eu quero de vocês. Que vocês liberem sua criatividade. Se vocês copiarem de outros, nunca serão ninguém. É botando as suas caixolas para funcionar que vocês vão fazer o mundo girar. Estão dispensados.

2 enfiaram o nariz:

wilsandrade disse...

adorei achei muito chique

9:06 PM
Reinadi Sampaio disse...

O barômetro...
Isso sim vale a pena ler...
Gosto de coisas deste nível, que contribua para o meu crescimento, sempre.
Parabéns.
Reinadi Sampaio.

1:19 AM

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