segunda-feira, 10 de abril de 2017

Legião Urbana

Dando continuidade ao Mês do Brasil no átomo, hoje é dia de Legião Urbana. A relação que eu tenho com Legião Urbana é mais ou menos a mesma que eu tenho com Queen: era uma das poucas bandas de rock das quais meu pai gostava, então era uma das poucas que eu ouvia quando criança - quando meu gosto musical era dominado por Trem da Alegria e Balão Mágico. Na minha adolescência, quando inventaram os CDs, todos os álbuns da Legião foram relançados em CD, e eu aproveitei para comprá-los. Hoje, ela é, com certeza, a minha banda nacional favorita - embora, quando me perguntem quais são minhas bandas favoritas, eu quase nunca me lembre de incluí-la na lista.

Aliás, quando me lembro, ao contrário de algumas pessoas que conheço, não tenho vergonha nenhuma de dizer que Legião Urbana é uma das minhas bandas favoritas. Recentemente, por algum motivo, muita gente os tem renegado, por conta de um movimento que surgiu nas redes sociais, e que prega que Legião Urbana (e U2, mas isso não vem ao caso agora) "é uma bosta". Não sei como isso começou, mas aposto que foi uma gracinha que alguém que não gosta da banda falou e um monte de gente saiu repetindo porque achou engraçado. A única coisa que eu tenho a dizer sobre isso é que, se você acha músicas como Índios, 1969 ou Perfeição "uma bosta", só me resta lamentar.


A história da Legião Urbana começa no início da década de 1980, na cidade de Brasília, com seu vocalista, Renato Russo. Nascido Renato Manfredini Jr., e adotando um nome artístico inspirado no filósofo Jean-Jacques Rousseau, Renato era vocalista de uma outra banda, chamada Aborto Elétrico, quando se desentendeu com seus dois outros integrantes, os irmãos Flávio e Fê Lemos. Conta a história que o estopim para a sua saída teria sido um show no qual Renato errou a letra da música Veraneio Vascaína, e Fê, o baterista, jogou uma das baquetas em sua cabeça enquanto ele ainda estava cantando. Renato, então, procuraria outros músicos para formar a Legião Urbana, e os irmãos Lemos se uniriam aos também irmãos Dinho e Ico Ouro Preto e fundariam a banda Capital Inicial.

A primeira formação da Legião Urbana teria Renato Russo nos vocais e no baixo, Marcelo Bonfá na bateria, Eduardo Paraná na guitarra e Paulo Paulista nos teclados. Essa formação se apresentaria em apenas um único show, em 5 de setembro de 1982, na cidade de Patos de Minas, Minas Gerais, durante o festival Rock no Parque, que contaria com shows de nove bandas diferentes, todas relativamente desconhecidas - sendo a mais famosa delas a Plebe Rude. Curiosamente, a empresa responsável pela organização do festival havia contratado o Aborto Elétrico, e impresso centenas de cartazes anunciando o show da banda; como ela não existia mais, porém, Renato os convenceria a substituir o Aborto Elétrico por sua nova banda, a Legião Urbana, já que os irmãos Lemos não tinham um novo vocalista e ainda não haviam formado sua nova banda. Após essa única apresentação, Paraná e Paulista deixariam a banda, e Ico Ouro Preto seria o novo guitarrista durante alguns meses, até sair para formar o Capital Inicial. Em março de 1983, Dado Villa-Lobos assumiria a guitarra, mas a Legião jamais contrataria um novo tecladista, com o próprio Renato Russo assumindo os teclados quando necessário.

Em 1983, enquanto a Legião fazia pequenos shows esporádicos pelo interior do país, Herbert Vianna, vocalista da banda Os Paralamas do Sucesso, mostraria para Jorge Davidson, diretor artístico da gravadora com a qual os Paralamas tinham contrato, a EMI, uma fita cassete com gravações de Renato Russo, anteriores à formação da Legião Urbana. Davidson se interessaria, e chamaria a banda para gravar três músicas pela EMI, com eles escolhendo 18 e 21, Ainda É Cedo e Geração Coca-Cola. Os executivos da EMI, entretanto, optariam por não contratá-los, pois, segundo eles, a gravadora não estava querendo investir em bandas de rock na época, procurando por um som mais ao estilo folk, parecidas com as que Renato cantava na fita apresentada por Herbert. O produtor Mayrton Bahia, por outro lado, viu o potencial da banda e intercedeu a seu favor, servindo como mediador em várias reuniões entre a banda e os executivos. Após ambos os lados aceitarem fazer concessões, a Legião Urbana assinaria com a EMI em fevereiro de 1984.

O primeiro álbum da Legião, também chamado Legião Urbana, seria lançado um ano depois, em janeiro de 1985. Durante seu processo de criação, Renato Russo sofreria um ferimento que prejudicaria seu pulso e o impediria de tocar baixo, segundo alguns, devido a uma tentativa de suicídio; por indicação de Bonfá, o baixista Renato Rocha passaria a fazer parte da Legião, transformando o trio em um quarteto. Com letras politizadas e som influenciado por bandas como The Smiths, Joy Division e Talking Heads, o álbum seria extremamente bem recebido pela crítica, que faria da Legião Urbana uma das bandas brasileiras mais aclamadas da década de 1980. Suas principais faixas seriam Será, Ainda É Cedo, Geração Coca-Cola e Por Enquanto, considerada pelo crítico Arthur Dapieve "a melhor faixa de encerramento de um disco" de todos os tempos. O álbum venderia mais de um milhão de cópias, algo impressionante para uma época na qual apenas Roberto Carlos, Xuxa e ídolos internacionais como Michael Jackson e Madonna costumavam quebrar essa barreira, e receberia um Disco de Platina triplo da ABPD, a Associação Brasileira dos Produtores de Discos.

De acordo com as concessões feitas por parte da banda e da gravadora, o primeiro álbum foi de puro rock, com um estilo até meio punk, mas o segundo deveria ser mais ao estilo folk. A banda chegaria a planejar um álbum duplo, mas, temendo que os custos fossem muito altos, a EMI recusaria. Chamado Dois, o álbum, simples, seria lançado em julho de 1986, e venderia ainda mais que o anterior, com cerca de 1,5 milhões de cópias, rendendo um Disco de Diamante da ABPD. Sua principal música de trabalho, Eduardo e Mônica, foi considerada arriscada pela gravadora, por não conter um refrão, mas, mesmo assim, seria uma das mais tocadas nas rádios e cantadas pelos fãs, sendo até hoje um dos maiores sucessos da banda. Outras faixas de destaque do álbum são Quase Sem Querer, Tempo Perdido, Andrea Doria e Índios.

Mantendo o estilo de músicas com fortes críticas políticas e sociais, mas sem descambar para o panfletarismo, a banda lançaria, em dezembro de 1987, seu terceiro álbum, Que País É Este 1978/1987. As datas no título do álbum são uma referência ao período de tempo durante o qual suas faixas foram compostas: devido ao enorme sucesso de Dois, a EMI faria uma grande pressão para que a banda lançasse um terceiro álbum o mais rápido possível, mas Renato Russo não estava se sentindo à vontade para compor novas canções; a solução foi pegar um monte de músicas que já estavam prontas, mas eram inéditas, e regravá-las para criar o álbum. Aparentemente, a estratégia daria certo, com o álbum vendendo 1,3 milhão de cópias e rendendo mais um Disco de Diamante da ABPD.

Apenas duas das faixas de Que País É Este 1978/1987 foram compostas depois do lançamento de Dois, justamente as duas últimas do álbum, Angra dos Reis, que criticava a construção de uma usina nuclear no Rio de Janeiro, e Mais do Mesmo. Algumas outras faixas foram inicialmente compostas para Dois, mas descartadas depois que o álbum duplo virou um álbum simples, sendo, então, gravadas para o terceiro álbum. A música que dá nome ao álbum, Que País É Este, foi composta em 1978, quando Renato Russo ainda era vocalista do Aborto Elétrico, mas não era cantada pela banda em seus shows por ser uma crítica explícita ao governo da época - uma Ditadura Militar, então realmente não era de bom tom sair criticando o governo assim a céu aberto. Que País É Este e Mais do Mesmo (que, curiosamente, era a preferência de Renato Russo para nome do álbum) seriam censuradas pelo governo, e passariam anos sem poder ser executadas nas rádios.

Que País É Este não seria a única música do Aborto Elétrico a fazer parte do álbum: Química era um dos maiores sucessos da banda, foi a única música do Aborto Elétrico a ser gravada e vendida em LP e fita cassete, foi gravada pelos Paralamas do Sucesso em seu álbum Cinema Mudo, e era uma espécie de faixa-bônus de Dois, presente apenas na versão do álbum em fita cassete; a versão de Química presente em Que País É Este 1978/1987 foi regravada especialmente para o álbum. Também merece menção Eu Sei, originalmente chamada 18 e 21, tocada nos shows da Legião desde a primeira formação da banda, presente em sua primeira gravação com a EMI, mas que ainda não havia sido lançada em nenhum álbum.

A música mais famosa de Que País É Este 1978/1987, porém, é Faroeste Caboclo, uma narrativa de mais de nove minutos de duração, que conta, em 159 versos, sem refrão, a história de João de Santo Cristo, retirante nordestino que vai tentar a vida em Brasília e se envolve com a criminalidade. Considerada por Renato Russo sua Hurricane (canção igualmente longa de Bob Dylan, que conta a história real de um boxeador negro preso injustamente), a faixa é até hoje uma das mais famosas da Legião Urbana, com fãs que se orgulham de saber toda a sua enorme letra de cór. Composta em 1979, ela permaneceria inédita até o lançamento do álbum, e seria parcialmente censurada pelo governo, com os palavrões sendo eliminados da letra para execução nas rádios - e, como nada era colocado no lugar deles, a música dava uns pulos estranhos toda vez que vinha um palavrão.

Após o lançamento do terceiro álbum, a banda passaria mais de um ano sem um novo lançamento, reduziria sua agenda de shows e passaria a fazer músicas mais introspectivas, sem críticas tão explícitas - mas ainda contundentes. A razão para isso não seria a censura, e sim um incidente ocorrido no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, em junho de 1988. Seria o primeiro show da Legião Urbana em sua cidade natal desde o lançamento de Dois, e, na época, a banda já contava com fãs insandecidos que os consideravam deuses na terra, a ponto de criar para a banda o apelido "Religião Urbana" - que Renato Russo detestava, criticava e pedia para que não fosse usado. A enorme expectativa criada em torno do show fez com que o Governo do Distrito Federal marcasse a apresentação para o maior estádio de futebol da cidade, com uma carga de 50 mil ingressos à venda; mesmo assim, a procura foi maior que isso, e, durante o show, milhares de fãs se amontoaram e tentaram derrubar os portões do estádio para entrar sem ingresso. Visando impedir uma tragédia maior, os organizadores do show decidiram abrir os portões e deixar todo mundo entrar, mas a medida acabou resultando em violência policial, pessoas pisoteadas, explosões de bombas caseiras e de gás lacrimogêneo, e em um fã alucinado que invadiu o palco, se agarrou a Renato Russo e se recusava a soltá-lo mesmo sendo atingido pelos cassetetes da polícia. O show foi imediatamente interrompido e a banda removida do palco e levada de volta ao hotel, enquanto uma verdadeira batalha campal ocorria no estádio. O saldo final foi de 21 mortos, mais de 300 feridos, 50 presos, e a Legião Urbana nunca mais se apresentando em Brasília enquanto Renato Russo viveu.

Alguns meses depois desse trágico show, Renato Rocha decidiria deixar a banda, alegando diferenças criativas irreconciliáveis com Bonfá e Villa-Lobos - que, por sua vez, alegavam que ele não se dedicava à banda tanto quanto eles. De início, após a saída de Rocha, Renato Russo tentaria voltar a ser o baixista da banda, mas depois, eles optariam por tocar com músicos contratados - para o quarto álbum da banda e os shows que o seguiram, seriam o baixista Bruno Araújo, o guitarrista Fred Nascimento e o tecladista Mu Carvalho - mas sem que estes fizessem, oficialmente, parte da banda, que, até o falecimento de Renato Russo, seria um trio, composto por Renato, Bonfá e Villa-Lobos.

O quarto álbum da banda, As Quatro Estações, seria lançado em outubro de 1989, e se tornaria o mais bem sucedido da história da banda, com mais de 2,5 milhões de unidades vendidas e um Disco de Diamante duplo da ABPD, além da aclamação total da crítica - até quem reclamou o fez com ressalvas. Apesar disso tudo, não havia como agradar a todos: muitos dos fãs mais antigos da banda, especialmente aqueles interessados em um som mais pesado e mais próximo do punk, como o de Que País É Este 1978/1987, ficariam extremamente insatisfeitos com As Quatro Estações, que tinha músicas mais lentas, um estilo mais pop e letras que falavam, principalmente, de amor, sem tantas críticas ao governo.

As Quatro Estações teve nada menos que nove músicas de trabalho - quase o álbum todo, já que o total é de onze. O principal destaque é Pais e Filhos, talvez o refrão mais famoso dentre todas as músicas da banda, e uma das mais pedidas pelos fãs - para o desespero de Renato Russo, já que a música fala de suicídio, e ele imaginava que ela não faria sucesso e ele não teria que cantá-la nem duas vezes, quem dirá centenas. Outro destaque é Monte Castelo, cuja letra traz citações do Soneto 11, do poeta Luiz de Camões, e da Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios, e cujo título faz referência ao local onde as Forças Armadas Brasileiras ganharam sua primeira grande batalha durante a Segunda Guerra Mundial. As outras sete músicas que tiveram destaque nas rádios foram Há Tempos, Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto, 1965 (Duas Tribos), Maurício, Meninos e Meninas, Sete Cidades e Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar.

Pouco tempo após o lançamento de As Quatro Estações, Renato Russo descobriu ser portador do vírus da AIDS. Isso levou a problemas em seu relacionamento com seu namorado, o norte-americano Robert Scott Hickmon, que, por sua vez, fizeram o músico recorrer ao alcoolismo. Essa fase turbulenta e complicada de sua vida deu origem ao álbum mais melancólico da Legião Urbana, chamado V, e lançado em novembro de 1991. Experimental e progressivo, V incluiria uma música cantada em português arcaico (Love Song), uma instrumental (A Ordem dos Templários) e a "interminável" Metal Contra as Nuvens, uma das músicas mais bonitas da banda, mas que, com mais de 11 minutos de duração, foi considerada inadequada para tocar nas rádios. As duas únicas músicas de trabalho foram O Teatro dos Vampiros, uma crítica à televisão e à crise econômica pela qual o país passava na época, e a belíssima Vento no Litoral, que fala de saudade e morte. V contaria com Bruno Araújo no baixo e venderia pouco mais de 800 mil cópias, rendendo mais um Disco de Platina triplo da ABPD.

Devido aos problemas de Renato, a banda se recolheria, participando de pouquíssimos shows no início da década de 1990, e sempre com público reduzido. Um desses shows ocorreu na cidade de São Paulo, em janeiro de 1992, e serviu como o segundo programa da série Acústico Mtv, a versão nacional do famoso programa Unplugged, no qual os artistas interpretam seus maiores sucessos em shows intimistas usando apenas instrumentos acústicos - sem componentes eletroeletrônicos que gerem sons, como, por exemplo, usando um piano ao invés de um teclado. A Legião tocaria seus maiores sucessos, como Faroeste Caboclo, Pais e Filhos, Há Tempos, Eu Sei, Índios, Mais do Mesmo, O Teatro dos Vampiros e até mesmo Metal Contra as Nuvens; algumas de suas músicas de menos sucesso, como Baader-Meinhoff Blues e Sereníssima; e quatro covers em inglês: On the Way Home, de Neil Young, Rise, da banda PIL, Head On, da banda The Jesus and Mary Chain, e The Last Time I Saw Richard, de Joni Mitchell. Mas a canção mais famosa do show, que acabaria sendo tocada repetidas vezes nas rádios, seria Hoje a Noite Não Tem Luar, versão de Carlos Colla para a canção Hoy Me Voy Para México, dos Menudos.

Vendo o grande sucesso do Acústico Mtv - que acabaria reprisado diversas vezes pela emissora - e devido à pequena quantidade de shows que a banda fazia, a EMI decidiria lançar um álbum duplo ao vivo, Música p/ Acampamentos, em novembro de 1992. Esse álbum tinha versões dos maiores sucessos da Legião Urbana e de alguns covers cantados pela banda (como de You've Lost That Loving Feeling, dos Righteous Brothers e de Gimme Shelter, dos Rolling Stones) cantados ao vivo durante shows realizado no Parque Antártica, em São Paulo, em agosto de 1990, e no Morro da Urca, no Rio de Janeiro, em agosto de 1986, e durante apresentações ao vivo nas rádios Transamérica, em 1988 e 1992, e Cidade, em 1992, além de algumas das canções do Acústico Mtv. A única faixa de estúdio era a inédita A Canção do Senhor da Guerra, originalmente gravada para o álbum Legião Urbana, mas posteriormente descartada. Lançada como música de trabalho de Música p/ Acampamentos, A Canção do Senhor da Guerra seria bastante executada nas rádios, se tornando mais um sucesso da banda.

O sexto álbum da Legião, O Descobrimento do Brasil, seria lançado em dezembro de 1993. Gravado enquanto Renato Russo fazia tratamento para se livrar da dependência química, o álbum oscila entre a alegria e a tristeza, e, para alguns, é o mais delicado da banda - exceto, talvez, por Perfeição, uma crítica mordaz à sociedade brasileira, que continua atual ainda hoje. As músicas de trabalho seriam Perfeição, Giz (a música preferida de Renato Russo dentre todas as que compôs, segundo ele mesmo), Vamos Fazer um Filme e Só por Hoje. Assim como V, O Descobrimento do Brasil venderia pouco mais de 800 mil cópias, rendendo mais um Disco de Platina triplo da ABPD.

Em 1994, Renato Russo decidiria lançar seu primeiro disco solo, The Stonewall Celebration Concert, contendo apenas covers de canções em inglês (como de Cherish, da Madonna, e Cathedral Song, de Tanita Tikaram, que ficaria famosa no Brasil pela versão em português Catedral, cantada por Zélia Duncan). Segundo Renato, o álbum era uma homenagem aos 25 anos da Rebelião de Stonewall, na qual membros da comunidade LGBT de Nova Iorque enfrentaram a polícia, que queria fechar o bar Stonewall Inn, frequentado pelos homossexuais da cidade, e é considerada como o evento que levou ao movimento da libertação gay e à luta pelos direitos dos LGBT nos Estados Unidos. Parte das vendas do álbum foi revertida para a campanha Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, e seu encarte trazia informações sobre como fazer doações para entidades como a Sociedade Viva Cazuza, o Grupo Gay da Bahia e o Greenpeace.

Renato lançaria mais um disco solo, Equilíbrio Distante, em 1995, dessa vez apenas com canções em italiano, sendo quatro delas (La Solitudine, Gente, Strani Amori e Lettera) covers da cantora Laura Pausini. O álbum seria gravado após uma viagem à Itália, na qual o músico buscou aprender mais sobre sua família e sua ascendência, e sua capa, que trazia o Coliseu, o Maracanã, o Pão de Açúcar e a Torre de Pisa (identificada como "Torre de Pizza"), seria desenhada pelo filho de Renato, Giuliano Manfredini. O videoclipe de Strani Amori seria o último gravado por Renato Russo em sua vida.

O último show da Legião Urbana aconteceria em janeiro de 1995, na cidade de Santos, São Paulo. Depois disso, Renato viajaria à Itália, se envolveria com as gravações de Equilíbrio Distante, e, ao retornar para a banda, já estava muito debilitado para participar de shows. Até mesmo as gravações do sétimo álbum da banda, A Tempestade ou O Livro dos Dias ficariam prejudicadas: exceto pela principal música de trabalho, A Via Láctea, todas as faixas teriam apenas a voz-guia gravada por Renato, que, se sentindo mal, não retornaria ao estúdio para gravar a voz definitiva - a voz-guia é gravada para ser usada quando os músicos forem gravar seus instrumentos; após todos terem gravado, o vocalista, usando os sons dos instrumentos como guia, grava a voz definitiva, que foi o que Renato Russo não conseguiu fazer. As fotos do encarte também foram todas tiradas quando da gravação, exceto as de Renato, aproveitadas de uma sessão de fotos de Equilíbrio Distante, pois ele mesmo, se achando "com aparência de doente", não quis posar para uma nova sessão.

Assim como ocorreu com Dois, A Tempestade foi inicialmente planejado para ser um álbum duplo, mas as baixas vendagens dos dois álbuns anteriores fizeram com que a EMI recusasse o projeto e ele fosse lançado como um álbum simples. Assim como V, o álbum é melancólico, com a maior parte das canções sendo introspectiva ou triste. O álbum contaria com a participação de Carlos Trilha no baixo e nos teclados, e suas músicas de trabalho seriam A Via Láctea e Dezesseis, que conta a história de um adolescente que morre em um pega de automóveis. A Tempestade venderia cerca de 1,1 milhão de cópias, rendendo um Disco de Diamente da ABPD.

A Tempestade seria lançado em 20 de setembro de 1996. 21 dias depois, em 11 de outubro, Renato Russo faleceria, vítima de complicações causadas pela AIDS. Onze dias depois, em 22 de outubro, Bonfá e Villa-Lobos anunciariam o fim oficial da banda.

Em julho de 1997, seria lançado o oitavo e último álbum da Legião Urbana, Uma Outra Estação, um álbum póstumo composto por três canções antigas e doze originalmente criadas quando o plano era fazer de A Tempestade um álbum duplo, mas descartadas quando a EMI vetou a ideia; a maior parte dessas canções estava incompleta, contando apenas com arranjos preliminares e a voz-guia de Renato Russo, e foi finalizada por Bonfá e Villa-Lobos com a participação de Renato Rocha no baixo, Carlos Trilha nos teclados e Tom Capone na guitarra, além da participação especial de Bi Ribeiro, baixista dos Paralamas do Sucesso, na faixa Travessia do Eixão, uma das três únicas músicas do álbum que não foram compostas por Renato Russo - as outras duas são High Noon (Do Not Forsake Me), uma canção popular norte-americana da década de 1950, e Schubert Ländler, canção instrumental de Franz Schubert interpretada por Carlos Trilha ao piano, escolhida pelo próprio Renato Russo na época da gravação de A Tempestade.

Duas das três músicas antigas foram compostas e gravadas por Renato Russo antes da formação da Legião Urbana: Mariane, cantada em inglês e composta em homenagem a uma namorada que Renato teve na adolescência, e Dado Viciado, que fala sobre problemas que um primo seu teve com drogas, e jamais foi gravada pela banda porque Renato temia que o público achasse que o Dado do título da música fosse Dado Villa-Lobos. A terceira, Marcianos Invadem a Terra, foi originalmente gravada para Dois, mas depois descartada, e não chegou a ser incluída em Que País É Este 1978/1987, ficando inédita até então. Das músicas criadas para A Tempestade e depois descartadas, apenas uma, Sagrado Coração, não tem os vocais de Renato Russo, que, já muito debilitado, não conseguiria gravar a voz-guia no dia marcado; a banda optaria por lançá-la em versão instrumental, mas com a letra constando no encarte.

Uma Outra Estação venderia cerca de 750 mil cópias, sendo o álbum de menor vendagem da Legião Urbana, mas, ainda assim, renderia um Disco de Platina duplo da ABPD. Suas músicas de trabalho seriam Antes das Seis, Flores do Mal e Marcianos Invadem a Terra.

Mesmo após a morte de Renato e o fim oficial da banda, a Legião Urbana continuaria atraindo novos fãs, com uma nova geração, que jamais havia visto Renato Russo cantar ao vivo, surgindo no final dos anos 1990 e início dos 2000. A grande procura pelos CDs da banda motivaria a EMI a lançar quatro álbuns póstumos com material gravado ao vivo: Acústico Mtv, com a gravação do programa de 1992, seria lançado em CD e DVD em 1999; Como É que Se Diz Eu Te Amo, CD duplo de 2001, seria a gravação de dois shows realizados em uma casa de espetáculos do Rio de Janeiro em 1994; outro álbum duplo, As Quatro Estações ao Vivo, lançado em 2004, seria o registro de dois shows realizados no Palestra Itália, em São Paulo, como parte da turnê do álbum As Quatro Estações, em 1990; e Legião Urbana e Paralamas Juntos, lançado em CD e DVD em 2009, seria a gravação de um especial de televisão exibido pela Rede Globo em 1988, que contou com a participação da Legião Urbana e dos Paralamas do Sucesso, inclusive com Renato Russo e Herbert Vianna fazendo um dueto na música Nada por Mim.

A EMI também lançaria dois discos póstumos de Renato Russo: O Último Solo, de 1997, continha músicas gravadas para The Stonewall Celebration Concert e Equilíbrio Distante, mas que ficaram de fora das versões finais dos respectivos álbuns; e Presente, de 2003, conta com gravações caseiras raras e trechos de entrevistas, selecionados dentre o acervo pessoal de Renato pelo jornalista Marcelo Fróes, com permissão da família. Em 2008, o selo independente Discobertas, em parceria com a gravadora Coqueiro Verde, lançaria O Trovador Solitário, álbum composto apenas de canções que Renato gravou sozinho, acompanhado apenas de seu violão, antes da formação da Legião Urbana.

Em setembro de 2009, surgiriam rumores sobre uma possível volta da Legião Urbana, que foram prontamente desmentidos por Bonfá e Villa-Lobos. Ambos participaram, desde então, acompanhados de artistas convidados, de vários tributos à Legião Urbana, mas sem usar o nome da banda, como um show no festival Porão do Rock ainda em 2009; uma apresentação durante o Rock in Rio 4, em 2011, na qual vocalistas de outras bandas, como Rogério Flausino e Toni Platão, cantaram sucessos da Legião acompanhados de Bonfá, Villa-Lobos e da Orquestra Sinfônica Brasileira; e um especial da série Mtv Ao Vivo, realizado em São Paulo em 2012 com o ator Wagner Moura nos vocais. A última apresentação oficial de Bonfá e Villa-Lobos em homenagem à Legião Urbana aconteceu em 2015, em uma série de shows que fizeram parte do projeto Legião Urbana XXX Anos, em comemoração aos trinta anos do lançamento do primeiro álbum da banda.

1 enfiaram o nariz:

criscampelo disse...

teve;após a formação com o ator Wagner Moura,mais uma formação,dessa vez com o também ator André Frateschi nos vocais

10:12 PM

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