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Olimpíadas (IX)

E vamos a mais um post sobre as Olimpíadas!

1940-1944


A bem da verdade, até Hitler invadir a Tchecoslováquia, em 1939, ninguém imaginava que suas ações pudessem dar início à Segunda Guerra Mundial. Nada mais natural, então, que o COI tocasse sua vida, decidindo em suas reuniões as sedes dos Jogos de 1940 e 1944. Quando a Guerra se tornou uma realidade, e era impossível disputar um torneio esportivo em meio a tiros e bombardeios, Henri de Baillet-Latour não viu outra saída senão cancelá-los. Felizmente, seria um cancelamento temporário, pois as Olimpíadas voltariam com sua força total em 1948.

A primeira sede escolhida para os Jogos de 1940 foi Tóquio, capital do Japão, na reunião do COI de 1935. Em seu direito de apresentar a sede para os Jogos de Inverno, o Japão indicou a cidade de Sapporo. Tóquio e Sapporo, porém, teriam de esperar mais um pouco para organizar suas Olimpíadas: em 1937 se iniciou a segunda guerra entre o Japão e a China, e em 1938 os japoneses anunciaram que não teriam condições de organizar os Jogos estando em guerra. Os Jogos de Verão então passaram para Helsinque, capital da Finlândia, segunda colocada na votação que elegeu Tóquio. Os de Inverno, excepcionalmente, seriam realizados em Sankt Moritz, sede da segunda edição do evento, para que a Finlândia não tivesse de construir ou reformar instalações para dois Jogos em tão pouco tempo. As discordâncias entre o comitê organizador suíço e o COI no tocante à inclusão do esqui alpino e à possibilidade de participação dos instrutores de esqui acabaram fazendo com que St. Moritz desistisse do evento durante a reunião do COI de 1939. Às vésperas dos novos Jogos, o COI decidiu reprisar a sede anterior, fazendo com que os Jogos de 1940 também acontecessem em Garmish-Partenkirchen. Três meses depois, a Segunda Guerra começaria, e os Jogos de 1940 não aconteceriam em lugar nenhum.

Os Jogos de 1940 foram cancelados, mas o COI ainda tinha esperanças de que a guerra seria breve, e manteve as sedes para os Jogos de 1944, escolhidas durante a reunião do COI de 1939. Naquela ocasião Londres foi a vencedora para abrigar os Jogos de Verão. Tendo a Grã-Bretanha aberto mão de seu direito de escolher a sede de Inverno, uma nova votação foi feita, e a vencedora foi Cortina d'Ampezzo, na Itália. Como em 1944 a Guerra ainda não havia acabado, o COI optou por também cancelar esta edição dos Jogos, e marcar a próxima para 1948, sem, entretanto, escolher suas sedes. Este cancelamento foi motivo de grande tristeza para os membros do Comitê, pois em 1944 o COI completaria 50 anos, e comemorações especiais estavam previstas para ocorrer durante os Jogos. Para não passar em branco, mesmo durante a Guerra, várias conferências e palestras foram ministradas na sede do COI, em Lausanne, Suíça.

Infelizmente, não foi Baillet-Latour quem presidiu estas comemorações. Fugido de sua Bruxelas natal, praticamente confinado na sede do COI, o conde belga morreria de depressão em 1941. Quem o sucedeu na presidência foi o sueco Sigfrid Edström, presidente do comitê organizador dos Jogos de 1912, em Estocolmo, e também presidente da Federação Internacional de Atletismo.

Sankt Moritz 1948


A Segunda Guerra acabaria em 1945. Com três anos até 1948, o COI esperava que as Olimpíadas não precisassem ser canceladas mais uma vez, o que certamente acarretaria no fim definitivo do evento. Por outro lado, a Guerra havia devastado a Europa, e seria difícil conseguir um país disposto a fazer as obras necessárias a uma nova edição dos Jogos de Inverno. A saída seria reprisar uma das sedes antigas, e a que tinha melhores condições para isso era St. Moritz, localizada na neutra Suíça. Além de hospedar os Jogos de 1928, St. Moritz já havia sido escolhida para sediar os de 1940, mas na ocasião uma divergência quanto à possível participação de instrutores de esqui na disputa do esqui alpino acabou acarretando uma troca de sede. Sigfrid Edström, o presidente do COI, sabia que, se perdesse St. Moritz, dificilmente encontraria outra cidade em condições de sediar o evento. Politicamente, portanto, ele considerou que instrutores de esqui não seriam considerados profissionais para as disputas do esqui alpino.

Com este problema resolvido, a Suíça mais que prontamentente aceitou sediar os primeiros Jogos de Inverno em doze anos. As instalações usadas há vinte anos, nos Jogos de 1928, ainda estavam em boas condições, de forma que poucas obras foram necessárias. Como um toque especial, foi adicionada uma pira na entrada do rinque de patinação, cujo fogo permaneceu aceso durante a duração dos jogos. A exemplo do de 1936, porém, este fogo também foi aceso antes da Cerimônia de Abertura, e não pela Tocha Olímpica, que só faria sua estréia nos Jogos de Inverno na edição seguinte.

Os Jogos de Inverno de 1948 são considerados como um dos mais equilibrados da história: somente dois atletas conseguiram ganhar duas medalhas de ouro cada, todos os demais eventos foram vencidos por atletas diferentes. Todos os países membros do COI foram convidados, exceto a Alemanha e o Japão, a pedido dos organizadores, pois as feridas da Guerra ainda estavam muito recentes. Mesmo com tantos convites, somente 28 países enviaram delegações, para um total de 669 atletas, sendo 77 mulheres, que competiram em 22 modalidades de 9 esportes: bobsleding, combinado nórdico, esqui alpino, esqui cross country, hóquei no gelo, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade, saltos com esqui e skeleton. O programa ainda contou com dois esportes de demonstração, o biatlo e o curioso pentatlo de inverno, composto de esqui cross country, tiro, a modalidade de descida do esqui alpino, esgrima e uma corrida a cavalo.

Livre do boicote que marcou sua apresentação em 1936, o esqui alpino contou com seis modalidades: descida, slalom e combinado, no masculino e feminino. Um dos maiores destaques da competição foi a americana Gretchen Fraser, que competiu no slalom. Após vencer a primeira bateria com folgas, Fraser se preparava para competir na segunda quando um problema técnico na cronometragem interrompeu a prova por 17 minutos. Mesmo após esta pausa enorme, ela ainda conseguiu manter seu ritmo, e conquistou a primeira medalha de ouro da história dos Estados Unidos no esqui. Outro destaque foi o francês Henri Oreiller, que ganhou o ouro na descida e no combinado, as duas primeiras medalhas de ouro da França nos Jogos de Inverno.

Além de Oreiller, somente o sueco Martin Ludström conseguiu duas medalhas de ouro, ambas no esqui cross country, uma nos 18 Km e uma no revezamento 4x10 Km. Na ausência de Sonja Henie, o grande destaque da patinação artística no gelo foi a canadense Barbara Ann Scott, de 19 anos, primeira não-européia a vencer na modalidade, que encantou os jurados com seu estilo e foi apelidada pela imprensa de "fada do gelo". Barbara poderia ter sido a sucessora de Henie nos Jogos, mas se profissionalizou logo após o evento.

A única confusão digna de nota ocorreu no hóquei no gelo: devido a uma disputa interna, os Estados Unidos enviaram à Suíça duas equipes, uma montada pelo Comitê Olímpico norte-americano, outra pela Associação de Hóquei Americana. O COI votou pela desclassificação de ambas as equipes, mas o comitê organizador pemitiu que o time da AHA competisse, terminando, inclusive, em quarto lugar. Diante de uma ameaça do COI de anular todo o torneio, a organização voltou atrás e anulou os resultados de todos os jogos do time da AHA. Felizmente, esta anulação não alterou a distribuição das medalhas - o torneio foi em pontos corridos, onde todos jogam contra todos e quem faz mais pontos é o campeão - e o ouro foi mais uma vez para o Canadá, que conseguiu seis vitórias e um empate, mesmos resultados da Tchecoslováquia, mas com um saldo de gols melhor.

Os Jogos de Inverno de 1948 foram realizados entre 30 de janeiro e 8 de fevereiro. Ao seu término, ganharam o apelido de "Jogos da Renovação", e provaram que o amor pelo esporte pode resistir até mesmo à maior das guerras.

Londres 1948


Em 1939, quando ainda não se sabia que o mundo mergulharia em uma Guerra, Londres havia sido escolhida para sediar as Olimpíadas de 1944, o que faria com que a capital inglesa se tornasse a segunda cidade a sediar duas edições dos Jogos. Com o cancelamento daquela edição, porém, o sonho londrino teve de ser adiado. Graças a Sigfrid Edström, presidente do COI, por apenas quatro anos. Não havia tempo hábil para selecionar uma sede para os Jogos de 1948, e mesmo que houvesse as candidatas seriam poucas. Edström, portanto, "premiou" Londres com o direito de sediar os Jogos de 1948, já que a cidade tivera de abrir mão dos de 1944. A Grã-Bretanha, porém, estava devastada pela Guerra, e muito relutou em aceitar este prêmio. Só concordou em realizar os Jogos quando Edström lhes garantiu de que eles não teriam nenhuma despesa para construir novas instalações, e de que o próprio COI se encarregaria da organização do evento.

Assim, não foram construídos novos estádios ou ginásios, sendo utilizados os que já estavam prontos desde o evento de 1908, ou os que haviam sido construídos para outros torneios. As cerimônias de abertura e encerramento, mais os jogos de futebol, ocorreriam no estádio de Wembley, construído em 1924. O atletismo foi disputado em uma pista de areia originalmente usada para corridas de cachorros, à qual os organizadores adicionaram pó de carvão para torná-la mais compacta. A natação e o boxe ocorreriam na Empire Pool, o basquete na Harringay Arena, a ginástica no Empress Hall, e o remo na raia de Henley, no Rio Tâmisa. Nem mesmo uma Vila Olímpica foi construída, ficando os atletas hospedados em acampamentos militares, escolas convertidas em alojamentos, ou em casas de famílias dispostas a ajudar. Muitas delegações levaram seus próprios cozinheiros, já que não haveriam refeitórios à disposição.

Com tudo resolvido, ainda que de forma meio improvisada, os Jogos foram marcados para de 29 de julho a 14 de agosto, e os convites enviados. Como represália pela Guerra, o COI não convidou a Alemanha nem o Japão, mas a pedido do primeiro ministro Winston Churchill, a Itália recebeu um convite. As nações comunistas, como Iugoslávia, Hungria e Polônia, também foram chamadas, assim como a União Soviética, que mais uma vez decidiu não comparecer. Por causa da proximidade com a Guerra, se imaginava que muitas outras nações declinariam do convite, mas Londres viu um número recorde de 59 países enviando delegações para competir em seus Jogos. Ao todo compareceram 4.099 atletas, sendo 385 mulheres. Do programa constaram 136 competições de 20 esportes: atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica, halterofilismo, hóquei, luta greco-romana, luta livre, natação, pentatlo moderno, pólo aquático, remo, saltos ornamentais, tiro e vela, mais lacrosse como esporte de demonstração. Por causa da distância entre esta e a última edição dos Jogos, poucos atletas que competiram em 1936 puderam voltar a participar em 1948, e apenas dois deles repetiram suas medalhas de ouro: o tchecoslovaco Jan Brzak, da canoagem, e a húngara Ilona Elek, da esgrima. Ainda na esgrima, merece destaque o dinamarquês Ivan Osier, que não ganhou medalhas, mas entrou para a história por ter competido nas duas edições dos Jogos de Londres, em 1908 e 1948.

Por causa da contenção de custos, a Cerimônia de Abertura foi discreta, com apenas o desfile das delegações e alguns discursos. A Tocha Olímpica, porém, foi mantida, e após ser acesa na Grécia e passar por um revezamento de atletas, chegou a Wembley nas mãos do corredor John Mark, responsável por acender a pira. 83 mil pessoas estavam presentes, mas estima-se que mais de 500 mil tenham visto a cerimônia, transmitida pela televisão, que na época já fazia parte dos lares de muitos moradores da Grã-Bretanha. Por mais que torcessem, porém, os britânicos pouco puderam fazer para ajudar sua delegação, ainda enfraquecida pela Guerra e sofrendo com a falta ou racionamento de combustíveis e alimentos, o que faria com que nesta edição, pela primeira vez, o país-sede não se colocasse entre os dez primeiros do não-oficial quadro de medalhas. Mesmo assim, a empolgação era tanta que a imprensa britânica, habitual detratora dos Jogos, fez uma cobertura exemplar do evento, e chegou até mesmo a criar os hoje famosos pictogramas - aqueles bonequinhos praticando os esportes - para ilustrar suas matérias.

Os maiores destaques desta edição dos Jogos vieram mais uma vez do atletismo, a começar por Emil Zatopek, da Tchecoslováquia, apelidado "a locomotiva humana". Com um jeito curioso de correr, fazendo caretas, Zatopek não tomou conhecimento dos adversários na prova dos 10.000 metros, mesmo a prova sendo disputada debaixo de uma forte chuva. Após a décima volta, completados 4.000 metros, Zatopek aumentou ainda mais seu ritmo, com uma inacreditável disparada que deixou para trás os favoritos, os finlandeses Viljo Heino e Raino Heinstrom e o francês Alain Mimoun. A disparada de Zatopek foi tão grande que ele chegou a colocar duas voltas de vantagem sobre os dois últimos colocados, uma volta de vantagem sobre os finlandeses, e completaria a prova com quase um minuto de vantagem sobre Mimoun. Os fiscais, desnorteados com sua velocidade, soaram o sino que anuncia a última volta por engano quando o líder abriu a penúltima volta. Felizmente, todos os corredores completaram a distância integral, mas a enorme diferença entre os primeiros e os últimos fez com que o resultado demorasse a sair, até que os fiscais chegassem a uma conclusão sobre quem chegou na frente de quem. Zatopek ainda poderia ter ganho o ouro nos 5.000 metros, mas não o fez por falta de humildade: ao completar 4.000 metros, Zatopek deu passagem ao belga Gaston Reiff e ao holandês Willem Slijkhuis, fazendo um gesto com o braço como um cavalheiro que permite que uma dama passe à sua frente, e permitindo a ambos uma folga de 40 metros. O plano de Zatopek era, ao soar do sino, mais uma vez dar sua arrancada devastadora, passando os oponentes e vencendo em grande estilo. Realmente ele conseguiu ultrapassar Slijkhuis, mas Reiff notou sua aproximação, apertou seu passo, e lhe tirou o ouro por apenas dois décimos, quebrando o recorde olímpico. Zatopek teve de se contentar com a prata, e aprender a competir sério.

Outra lenda de 1948 veio do decatlo, o norte-americano Bob Mathias, de apenas 17 anos, até hoje o atleta mais jovem a ganhar uma medalha no atletismo. Mathias havia começado a disputar provas de decatlo apenas quatro meses antes, tendo sido convencido por um professor de sua escola a trocar o futebol americano, esporte que praticava, pelas dez provas combinadas nas quais se consagraria. Inexperiente, Mathias teve de aprender as regras que fossem diferentes das que estava acostumado nos campeonatos inercolegiais dos EUA durante as provas, quase sendo eliminado diversas vezes. Ainda por cima, choveu durante a maior parte dos dois dias da competição, que ainda se estendeu durante a noite, com a ajuda de vários carros estacionados com os faróis ligados para que os atletas vissem o que estavam fazendo. No dia seguinte à sua conquista, ao receber sua medalha de ouro, Mathias declarou aos repórteres que "não repetiria o que fiz ontem e anteontem nem por um milhão de dólares".

Entre as mulheres, fez história a holandesa Fanny Blankers-Koen, detentora dos recordes mundiais no salto em altura, salto em distância, 100 metros rasos, 200 metros rasos e 80 metros com barreiras. Como o regulamento da época só permitia que mulheres competissem em no máximo quatro provas, ela optou pelas três últimas, mais o revezamento 4x100 metros. Ganhou o ouro em todas. Casada com seu treinador, mãe de dois filhos, Fanny, de 30 anos, ainda arrumou um tempinho entre as competições para visitá-los em Amsterdam. Por todos os seus feitos, ela ganharia um troféu especial, Victrix Ludorum, a Rainha dos Jogos.

No pólo aquático, a bicampeã Hungria seria derrotada na final pela Itália, campeã invicta, com um time tão bom que ganharia o apelido de Settobello, o "sete de ouros", em alusão ao tradicional jogo de cartas italiano scopa e aos sete atletas que compõem o time. E o futebol teve seu último torneio antes do domínio das nações comunistas, que muitos acusam de ter inscrito "falsos amadores", atletas supostamente amadores mas que recebiam dinheiro do governo para treinar como profissionais. O campeão de 1948 foi a Suécia, com o time que revelou os três irmãos Nordahl, e que seria terceiro lugar na Copa do Mundo de dois anos depois e vice-campeão em 1958. Após esta edição, as nações comunistas ganhariam 22 das 27 medalhas em jogo de 1952 a 1980.

Também merece destaque o húngaro Karoly Takacs, do tiro. Campeão mundial em 1938, durante a Guerra ele perderia sua mão direita, a mão da pistola, na explosão de uma granada. Sem desistir, Takacs pacientemente treinou durante dez anos para atirar com a mão esquerda, e retornou às competições exatamente em 1948, ganhando o ouro na pistola de tiro rápido e quebrando o recorde mundial.

O Brasil, com uma delegação composta de 68 homens e 11 mulheres, após 28 anos finalmente ganharia uma nova medalha, um bronze no basquete, onde venceu todos os seus jogos exceto a semifinal, contra a França. Em oito outros esportes, os atletas brasileiros ficariam entre os oito primeiros. No salto triplo, por exemplo, Geraldo de Oliveira ficaria na quinta colocação, e aconteceria a estréia internacional de Adhemar Ferreira da Silva, futuro recordista mundial e campeão olímpico. Outros quatro brasileiros seriam finalistas na natação, sendo três sextos lugares: Willy Otto Jordan nos 200 metros peito, Piedade Coutinho nos 200 metros livre, e a equipe feminina do revezamento 4x100 metros livre. Além deles, o revezamento 4x200 metros livre masculino seria o oitavo lugar. Podem parecer resultados pouco expressivos, mas demonstravam a clara evolução do esporte de nível internacional do país. Além disso, depois de 1948, o Brasil ganharia pelo menos uma medalha a cada edição dos Jogos Olímpicos.

Por fim, nos Jogos de 1948 aconteceu um fato ridículo, mas divertidíssimo: um dos integrantes do comitê olímpico britânico, Lord Cecil Burghley, teve a brilhante idéia de homenagear o italiano Dorando Pietri, desclassificado da maratona de 1908 por receber ajuda dos fiscais, mas que poderia ter vencido a prova se isto não tivesse ocorrido. Pietri, então, foi convidado para dar o tiro de largada da maratona de 1948, e aceitou a homenagem, comparecendo, já velho, mas ainda bem-humorado e descontraído. Emocionado, Lord Burghley o hospedou em seu castelo, e chegou até mesmo a levá-lo para visitar o Palácio de Buckingham, onde foi recebido com todas as honras e muitas homenagens. Tal fato foi noticiado em toda a imprensa européia, inclusive na italiana, o que acabou desmascarando um impostor: o verdadeiro Pietri havia morrido em 1942, durante a Guerra. O falso Pietri acabaria preso e deportado, e Lord Burghley, envergonhado, pediria demissão do comitê, mas seus colegas, achando muita graça do episódio, não aceitaram sua dispensa.

Mas verdadeiramente emocionante e nada ridículo seria o fato de que o Espírito Olímpico sobreviveria à Guerra: de 1948 em diante, as Olimpíadas jamais seriam canceladas novamente.
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Fórmula 1 (III)

E hoje vamos à terceira parte da História da Fórmula 1!

1970-1979


O final da década de 60 trouxe muitas novidades para a categoria, como as asas, o cockpit e o patrocínio. Mas isso era só o começo. Durante a década de 70 muitas outras inovações seriam introduzidas, GPs seriam corridos em novos cantos do planeta, e a categoria começaria a ser alçada ao posto máximo do automobilismo mundial, exatamente como a FIA queria quando a criou.

Emerson FittipaldiA Lotus continuou sendo uma das principais responsáveis por inovar. Seu carro para a temporada de 1970, o Lotus 72, trazia suspensões com barra de torção, freios dianteiros e um novo modelo de aerofólio, além de um novo tipo de pneu produzido pela Goodyear especialmente para a Fórmula 1, totalmente lisos para melhorar a performance do carro, apelidados de slick. A Tyrrell, equipe que herdou a tecnologia da Matra, também estava disposta a fazer um carro revolucionário, mas acabou amarrada por problemas de patrocínio. A Matra tinha um contrato com a fabricante de automóveis francesa Simca, o que impedia a Tyrrell de usar motores Ford. Jackie Stewart chegou a testar um Tyrrell equipado com um Matra V12 da temporada anterior, mas o carro era claramente inferior aos equipados com o Ford Cosworth. Sem chances de brigar pelo título, Ken Tyrrell optou por comprar chassis March e equipá-los com motores Ford, ao invés de utilizar os carros que herdou da Matra, e trabalhar em um carro totalmente novo para a temporada seguinte.

A temporada de 1970 contou com 13 GPs: África do Sul em Kyalami, Espanha em Jarama, Mônaco em Monte Carlo, Bélgica em Spa-Francorchamps, Holanda em Zandvoort, França em Charade, Inglaterra em Brands Hatch, Alemanha em Hockenheim, Áustria em Österreichring, Itália em Monza, Canadá em Mont-Tremblant, Estados Unidos em Watkins Glen, e México na Cidade do México. A bordo do Lotus 72, o austríaco Jochen Rindt venceria cinco provas, sendo quatro seguidas. Infelizmente, durante uma sessão de treinos para o GP da Itália, uma quebra faria com que Rindt encontrasse a morte na curva Parabolica. Rindt acabou se tornando o primeiro - e até hoje único - campeão póstumo da Fórmula 1, pois nas quatro provas que restavam para o final da temporada, seu principal oponente, o belga Jacky Ickx, da Ferrari, não conseguiu pontos suficientes para ultrapassá-lo. Ickx terminou a temporada com três vitórias, cinco pontos atrás de Rindt. Muitos dizem que Ickx só não conseguiu devido à vitória do companheiro de equipe de Rindt na Lotus, o brasileiro Emerson Fittipaldi, no GP dos Estados Unidos, a primeira vitória de um brasileiro na Fórmula 1. Emerson estreou na categoria naquele ano, como terceiro piloto da equipe, mas acabou se tornando o primeiro após a morte de Rindt e a saída do inglês John Miles.

A morte de Rindt mexeu profundamente com a Lotus, principalmente porque ninguém entendia direito o que havia acontecido. O Lotus 72 foi praticamente abandonado, e a equipe começou a trabalhar em um novo carro para a temporada de 1971, com motor com turbina a gás e tração nas quatro rodas, visando torná-lo mais seguro sem perder velocidade. Tanta experimentação fez com que a equipe não fizesse uma boa temporada, sem ganhar nenhuma prova, e com Emerson terminando o campeonato em sexto lugar. Ken Tyrrell, por outro lado, finalmente pôde fazer seu carro do jeito que queria, com um chassis praticamente idêntico ao do Matra de 1969, mas utilizando tanques de combustível comuns, e um motor Ford Cosworth. Este carro deu ao escocês Jackie Stewart seu segundo título, com seis vitórias em onze provas - o calendário ficou mais curto devido às saídas dos GPs do México e da Bélgica; além disso, o GP da Espanha passou para Montjuïc, o da França foi para Paul Ricard, o da Inglaterra voltou para Silverstone, o da Alemanha para Nürburgring, e o do Canadá para Mosport.

Após um ano de insucessos tentando fazer um carro novo, a Lotus decidiu começar 1972 com uma versão modificada do Lotus 72, o 72D. Sua patrocinadora, a Imperial Tobacco, querendo divulgar sua nova marca, o John Player's Special, pediu para que o carro fosse pintado nas cores do maço, preto com letras douradas. Este carro acabou apelidado de JPS, e é considerado até hoje por muitos fãs como o mais bonito da história da Fórmula 1. Além de bonito, o 72D era veloz e confiável, e permitiu que Emerson Fittipaldi conquistasse cinco vitórias, uma a mais que seu rival Stewart, e se tornasse não somente o primeiro brasileiro campeão da Fórmula 1, mas também o campeão mais jovem da categoria, com 25 anos, recorde que perduraria até o título de Fernando Alonso em 2005. O calendário voltaria a ter 12 provas, com a volta dos GPs da Argentina em Buenos Aires, da Bélgica em Nivelles-Baulers, e a saída do GP da Holanda. O troca-troca de sedes continuou, com o GP da Espanha voltando para Jarama, o da França para Charade e o da Inglaterra para Brands Hatch. 1972 também foi o ano de estréia de dois outros brasileiros, a primeira temporada com três correndo simultaneamente: José Carlos Pace fez sua estréia no GP da África do Sul correndo pela March; e o irmão de Emerson, Wilson Fittipaldi, estrou no GP da Espanha a bordo de um Brabham. Wilson correu 38 GPs, sendo os da temporada de 1972 e 1973 pela Brabham, e os de 1975 por sua própria equipe, a Fittipaldi, somando 3 pontos e tendo como melhor resultado um quinto lugar no GP da Alemanha de 1973. Pace foi melhor sucedido, correndo 73 GPs entre as temporadas de 1972 e 1977, sendo a primeira pela March, a de 73 e metade da de 74 pela Surtees, e encerrando sua carreira pela Brabham. Conseguiu uma vitória no GP do Brasil de 1975, uma pole position no GP da África do Sul daquele mesmo ano, seis podiums, cinco voltas mais rápidas e somou 58 pontos. Pace faleceu em março de 1977, quando o avião em que viajava bateu em uma árvore na Serra da Cantareira, durante uma tempestade. Em 1985, o autódromo de Interlagos, onde atualmente é realizado o GP do Brasil, recebeu seu nome em sua homenagem.

A temporada de 1973 foi a mais longa até então, com 15 corridas, graças à volta do GP da Holanda, e à estréia dos GPs do Brasil em Interlagos, e da Suécia em Anderstorp. Os GPs da Espanha, França e da Inglaterra voltaram para Montjuïc, Paul Ricard e Silverstone, repectivamente, e o GP da Bélgica passou para Zolder. Nas pistas, o domínio foi mais uma vez da Lotus, com Emerson Fittipaldi vencendo três corridas, e seu parceiro, o sueco Ronnie Peterson, conquistando mais quatro. A Lotus ganhou o título de construtores, mas o campeão dos pilotos foi mais uma vez o escocês Stewart, da Tyrrell, que venceu cinco provas. O segundo piloto da Tyrrel, o francês François Cévert, sofreu um acidente fatal durante os treinos para o GP dos Estados Unidos, o que levou a equipe a desistir da prova. Ao final da temporada, Stewart anunciou sua aposentadoria, que, ao contrário do que possa parecer, já estava planejada desde antes do acidente com seu colega. 1973 também viu pela primeira vez quatro brasileiros em uma mesma corrida, quando Luiz Bueno correu o GP do Brasil pela Surtees, chegando em 12o lugar.

Com Stewart aposentado, parecia que a temporada de 1974 seria mais uma vez dominada pela Lotus. No final da temporada de 1973, porém, os carros da McLaren começaram a obter bons resultados: seu chassis era parecido com o do Lotus 72, mas a aerodinâmica era muito melhor, e a suspensão era do tipo convencional, sem barras de torção. Teddy Mayer, o diretor da McLaren, prometeu a Emerson que, se ele corresse por sua equipe, teria status de primeiro piloto, algo de que na Lotus, sendo parceiro de Peterson, não dispunha. Surpreendentemente para muitos, Emerson aceitou.

Mas a Ferrari também estava disposta a ganhar mais um título - algo que não acontecia há dez anos - e decidiu investir pesado, projetando seu primeiro carro com cockpit, impulsionado por um motor reto de 12 cilindros, e pilotado pelo austríaco Niki Lauda e pelo suíço Clay Regazzoni. Graças a isso, a temporada de 1974 - onde as únicas mudanças no calendário foram as transferências dos GPs da Espanha, França, Bélgica e Inglaterra para Jarama, Dijon-Prenois, Nivelles-Baulers e Brands Hatch, respectivamente - foi uma das mais equilibradas dos últimos tempos: Emerson, Peterson e o argentino Carlos Reutemann, da Brabham, ganharam três corridas cada um; Lauda venceu duas; o sul-africano Jody Scheckter, da Tyrrell, venceu o GP da Suécia e terminou quase todos os outros na zona de pontuação; e Regazzoni fez a corrida mais equilibrada de todos os candidatos ao título. Somente no GP dos EUA, última corrida da temporada, é que o título seria decidido entre Regazzoni, Scheckter e Emerson, que acabou se tornando bicampeão com apenas três pontos de vantagem sobre o piloto da Ferrari. 1974 também teve a estréia da segunda mulher a pilotar um Fórmula 1, a italiana Lella Lombardi, que correu o GP da Inglaterra pela Brabham. Lella ainda correria a temporada de 1975 e o GP do Brasil de 1976 pela March, o GP dos EUA de 1975 pela Williams e os GPs da Inglaterra, Alemanha e Áustria de 1976 novamente pela Brabham. Seu melhor resultado foi um sexto lugar no GP da Espanha de 1975, que lhe rendeu meio ponto, e fez com que ela se tornasse a única mulher até hoje a pontuar na Fórmula 1.

A temporada de 1975 começou com uma grande novidade para o Brasil: a estréia não de um piloto, mas de uma equipe brasileira, a Fittipaldi, patrocinada pela usina de álcool e açúcar Copersucar, nome pelo qual ficou conhecida no Brasil. Na época, era comum pilotos ou ex-pilotos criarem ou comprarem um chassis, juntá-lo a um motor Ford Cosworth e uma caixa de câmbio Hewland, e criar sua própria equipe. Foi isso o que fizeram Graham Hill, John Surtess, e, insatisfeito com seu tratamento na Brabham, Wilson Fittipaldi. A equipe fez sua estréia no GP da Argentina de 1975, pilotado pelo próprio Wilson Fittipaldi. Wilson não conseguiu se classificar para três das 14 provas, e só completou cinco das demais, tendo como melhor resultado o décimo e último lugar no GP dos EUA. No GP da Itália, Wilson, que havia quebrado a mão durante o treino para o GP da Áustria, foi substituído pelo italiano Arturo Merzario, que terminou em 11o lugar.

Mas a Fittipaldi não foi a única surpresa de 1975. Os carros de então já haviam copiado tudo o que a Lotus inventava, ficando com o aspecto dos carros de corrida que conhecemos hoje. Também já começavam a ser utilizadas as entradas de ar sobre a cabeça do piloto para ventilação do motor. A maior inovação, porém, veio da Ferrari, com uma nova caixa de câmbio que possibilitava uma melhor distribuição do peso do carro. Pilotando um carro equipado com esta novidade, Niki Lauda finalmente quebrou o jejum de títulos da equipe, vencendo cinco provas e conquistando o título de pilotos e de construtores. Emerson venceu duas provas, mas seus resultados nas demais foram suficientes para garantir o vice-campeonato. Outra grande surpresa de 1975 foi a vitória do inglês James Hunt no GP da Holanda, dirigindo um carro da pequenina equipe Hesketh, que se recusava a correr com patrocínio. Mesmo sendo o único piloto da equipe, Hunt faria uma temporada tão boa que terminaria em quarto lugar, assim como sua equipe no mundial de construtores. No calendário houve um novo troca-troca, com os GPs da Espanha, Bélgica, França e Inglaterra voltando para Montjuïc, Zolder, Paul Ricard e Silverstone. Além disso, não houve o GP do Canadá.

Se Emerson já tinha surpreendido o mundo ao se transferir para a McLaren, em 1976 ele surpreendeu ainda mais ao se tranferir para a equipe do irmão. Mesmo sabendo que não tinha chances de chegar ao título, Emerson acreditava que podia contribuir para que, em dois ou três anos, o Brasil tivesse uma das melhores equipes da Fórmula 1. Emerson conseguiu largar em quinto lugar no GP do Brasil, e chegou em sexto lugar três vezes, marcando três pontos. Em quatro corridas, Emerson teve como companheiro o brasileiro Ingo Hoffman, que estrearia nesta temporada. Hoffman correria ainda os dois primeiros GPs de 1977 pela Fittipaldi, e teria como melhor resultado o sétimo lugar no GP do Brasil de 1977. Outro brasileiro, Alex Ribeiro, também fez sua estréia em 1976, correndo o GP dos EUA pela Hesketh. Ribeiro ainda correria a temporada de 1977 pela March e as duas últimas provas de 1979 pela Fittipaldi. Seus melhores resultados foram dois oitavos lugares nos GPs da Alemanha e do Canadá de 1977.

O calendário de 1976 foi o mais extenso até então, com 16 provas. O GP da Argentina saiu, o do Canadá voltou, e estrearam os GPs do Japão em Fuji - o primeiro na Ásia - e o GP dos Estados Unidos Oeste, em Long Beach. O GP da Espanha voltou para Jarama e o da Inglaterra para Brands Hatch. Sem Emerson na McLaren, a previsão era de que Niki Lauda conseguiria seu segundo título consecutivo. Lauda, porém, sofreu um grave acidente na primeira volta do GP da Alemanha, realizado sob forte chuva. Seu carro se transformou em uma bola de fogo, e poucos acharam que ele sobreviveria. O piloto chegou até mesmo a receber a extrema unção no hospital, mas, para surpresa de todos, seis semanas depois ele já estava correndo. O título acabou nas mãos de James Hunt, que se transferiu para o lugar de Emerson na McLaren. Hunt venceu seis provas contra cinco de Lauda, e terminou o campeonato com apenas um ponto de vantagem. Lauda poderia ter sido campeão se não tivesse desistido do GP do Japão, novamente realizado em um dia de forte chuva, sob o argumento de que, do dia de seu acidente em diante, sempre colocaria sua segurança em primeiro lugar.

1976 também teve a estréia de outra mulher, a inglesa Divina Galica, que disputou a classificação do GP da Inglaterra pela Surtees e os dois primeiros GPs de 1978 pela Hesketh, mas não conseguiu se classificar em nenhum dos três. Mas a maior inovação do ano foi o carro P34 da Tyrrell, que tinha um diferencial inusitado: seis rodas, sendo quatro menorezinhas na frente e duas do tamanho normal atrás. O P34 conseguiu bons resultados, e com ele Jody Scheckter ganhou o GP da Suécia, mas as seis rodas não tinham nenhuma vantagem real sobre as quatro dos concorrentes. Assim como várias franjas e saias plásticas que Colin Chapman decidiu acoplar a seu Lotus e todo mundo copiou, mesmo sem saber para que serviam.

Enzo Ferrari não gostou de Lauda ter abandonado o GP do Japão de 1976, e para 1977 decidiu que ele seria o segundo piloto, e Carlos Reutemann o primeiro. Mesmo assim, os mecânicos da equipe gostavam muito de Lauda, e essa simpatia foi fundamental para que ele tivesse sempre um bom carro e pudesse chegar ao seu segundo título. Lauda venceu apenas duas corridas, contra três de Hunt e Scheckter e quatro do norte-americano Mario Andretti, mas devido aos seus resultados em outras provas conseguiu o campeonato com 17 pontos de vantagem sobre Scheckter. O vice-campeonato de Scheckter, aliás, também foi uma surpresa, pois ele havia se transferido para a novata Wolf. Emerson, ainda correndo pela equipe Fittipaldi, conseguiu três quartos lugares e um quinto, marcando 11 pontos. O calendário cresceu ainda mais, para 17 provas, com a volta do GP da Argentina. Os GPs da França, Inglaterra e Alemanha passaram para Dijon-Prenois, Silverstone e Hockenheim.

1977 viu ainda três grandes inovações tecnológicas: para começar, as saias da Lotus disseram a que vieram, trazendo para a categoria o efeito solo, capaz de grudar o carro no chão e proporcionar mais aderência com menos atrito. Em pouco tempo, todas as equipes passariam a copiá-lo, e ele se tornaria uma consideração indispensável na hora de fazer um carro de Fórmula 1. A segunda veio quando a Renault introduziu na categoria os motores turbo de um litro e meio, adaptado de seus carros esporte. Embora os motores turbo estivessem previstos no regulamento, as montadoras não arriscavam fazê-los porque acreditavam que o consumo elevado de combustível não compensaria os resultados. A Renault provaria o contrário, e no início da década de 80 praticamente todos os carros teriam motores turbo. A terceira inovação veio quando a Michelin introduziu os pneus radiais, justamente nos carros da Renault. Até então, todas as equipes utilizavam pneus Goodyear, que ainda fabricava o modelo cruzado. Lentamente, o radial se mostraria mais eficiente - tanto que, hoje em dia, ninguém mais usa cruzado, nem em carros de passeio - e, para não perder clientes, a Goodyear passaria também a fabricá-lo. O efeito colateral disto foi que, com seu tempo tomado por pesquisas, a Goodyear não tinha mais como fabricar os pneus dianteiros exclusivos de que o Tyrrell P34 precisava, e o modelo acabou sendo abandonado.

Nem mesmo o título de 1977 melhorou as relações de Lauda com Enzo Ferrari, e ao final da temporada o austríaco deixou a equipe italiana e se transferiu para a Brabham. Sem favoritos, o campeonato de 1978 seria decidido por quem fizesse o melhor uso das novas tecnologias, e a equipe que saiu na frente foi a Lotus, que já vinha testando carros com efeito solo há mais tempo. Andretti, o primeiro piloto da equipe, venceu seis das 16 provas da temporada, enquanto Peterson, seu parceiro de equipe, venceria mais duas. Andretti se tornaria o campeão daquele ano, mas nem tudo seria festa na Lotus: na primeira volta do GP da Itália, Peterson sofreria um acidente espetacular, que deixou seu carro em chamas. Hunt, Regazzoni, e o francês Patrick Depailler, que também se envolveram no acidente, conseguiram salvá-lo com apenas queimaduras leves, mas Peterson morreria no hospital devido a uma embolia.

No calendário, a temporada de 1978 não contou com o GP do Japão, e os GPs da França, Inglaterra, Brasil e Canadá passaram para Paul Ricard, Brands Hatch, Rio de Janeiro e Montreal. Com a saída do Tyrrell de seis rodas, o prêmio de esquisitice da temporada foi para o Brabham BT46B, que contava com um imenso ventilador na traseira, parecido com uma turbina de avião. A equipe, comandada por Bernie Ecclestone, desenvolveu o dispositivo para aumentar o efeito solo, aproveitando-se de uma brecha no regulamento. Lauda chegou a vencer o GP da Suécia com ele, mas Ecclestone achou por bem aposentar a esquisitice antes que a FIA punisse a equipe pelo seu uso.

Emerson Fittipaldi fez a melhor temporada de sua equipe, conseguindo um segundo lugar no GP do Brasil, e marcando pontos em outros cinco GPs. No geral, a equipe Fittipaldi terminou o campeonato de construtores em sétimo lugar, à frente da McLaren. 1978 também foi o ano de estréia do brasileiro Nelson Piquet, que correu o GP da Alemanha pela Ensign, os GPs da Áustria, Itália e Holanda pela McLaren, e o GP do Canadá pela Brabham, sem resultados expressivos.

1979 não foi uma boa temporada para o Brasil. A Fittipaldi não conseguiu manter o bom desempenho do ano anterior, e Emerson só marcou pontos graças a um sexto lugar no GP da Argentina. Piquet foi um pouco melhor, correndo pela Brabham e conseguindo um quarto lugar no GP da Holanda. O calendário teve 15 provas, sem o GP da Suécia, e com os GPs do Brasil, França e Inglaterra voltando para Interlagos, Dijon-Prenois e Silverstone. O título foi disputado entre o francês Jacques Lafitte, da Ligier, que teve duas vitórias; o australiano Alan Jones, da Williams, com quatro vitórias; o canadense Gilles Villeneuve e o sul-africano Jody Scheckter, ambos da Ferrari, ambos com três vitórias cada. Os carros destas três equipes deram um salto de qualidade, o que obrigou a Lotus a testar um novo modelo que não se mostrou competitivo. No fim, o campeonato foi para Scheckter, sete pontos à frente de Villeneuve, um domínio da Ferrari que curiosamente iniciou um jejum de títulos de 21 anos para a equipe de Maranello.

Pois bem, chegamos ao final de 1979 e este post já está imenso. Mais agora, só na próxima parte.
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Aventureiros do Bairro Proibido

Eu nunca pensei que um dia fosse colecionar filmes, por dois motivos: primeiro, não era tão fácil assim encontrar filmes em vídeo vendendo, a não ser que fossem infantis. Segundo, porque fitas de vídeo ocupavam um espação, e precisavam ser rebobinadas pra lá e pra cá caso tivessem mais de um filme gravado, o que nunca me animou a gravar nenhum da TV. Quando os DVDs foram lançados, este panorama mudou: não só eles eram fáceis de armazenar, vendiam em todo lugar e eram relativamente baratos, como também, por alguma razão, um monte de filmes velhos que não passam mais nem na TNT começaram a ser vendidos neste formato. Isto foi mais do que suficiente para que eu começasse uma coleção de filmes, antes mesmo de comprar um DVD Player. Depois de comprar alguns, eu comecei a fazer uma listinha - que depois sumiu, o que fez com que essa semana eu tivesse que começar uma nova, mas isso não vem ao caso - de todos os filmes "clássicos" dos quais eu me lembrasse e que pudesse vir a querer comprar. Embora meu filme preferido de todos os tempos seja O Feitiço de Áquila, o primeiro do qual me lembrei e pus na lista foi outro, um filme que eu nunca tinha visto em DVD, e que já estava começando a achar que ninguém nunca iria se interessar de lançar, até que o encontrei essa semana, ainda por cima duplo, com onze extras que incluem cenas excluídas e final alternativo, algo assombroso na minha opinião. Qual era este filme? O tema do post de hoje, Aventureiros do Bairro Proibido! É ou não é um assombro ele vir com tantos extras?

Lançado em 1986 com o título de Big Trouble in Little China ("grandes problemas na pequena China") e dirigido por John Carpenter (de Fuga de Nova York e O Enigma de Outro Mundo), o filme conta a história de dois amigos, o chinês Wang Chi (Dennis Dun) e o caminhoneiro norte-americano Jack Burton (Kurt Russell). Quando jovem, Wang deixou a China para viver e trabalhar em Chinatown, o bairro chinês de São Francisco, com a promessa de que, quando tivesse dinheiro suficiente, traria sua noiva, Miao Yin (Suzee Pai), para se casarem e viverem felizes para sempre na América. Quando este dia chega, ele e Burton vão buscá-la no aeroporto, onde o caminhoneiro conhece a advogada Gracie Law (Kim Cattrall). Quando Miao Yin desembarca, porém, é seqüestrada pela Gangue dos Senhores da Morte, para ser vendida como prostituta, porque ela possui uma característica raríssima em chinesas: olhos verdes. Wang e Burton vão até os domínios dos Senhores da Morte em Chinatown para salvá-la, mas Miao Yin é novamente seqüestrada, e desta vez por algo ainda pior.

Há dois mil anos, na China, um feiticeiro de nome Lo Pan (James Hong) tentou matar o Imperador. O Imperador descobriu a traição, e lançou sobre ele uma maldição, segundo a qual ele viveria para sempre, mas sem carne, apenas na forma de um espírito. Através de um pacto com o deus do Leste, Lo Pan conseguiu manter seus poderes e assumir um corpo de um velho decrépito, assumindo a identidade de David Lo Pan, um rico industrial de Chinatown. Ainda segundo este mesmo pacto, Lo Pan poderia voltar a ser de carne e osso mantendo seu corpo jovem e todos os seus poderes, bastando para isso se casar com uma moça de olhos verdes como dragões de jade, e sacrificá-la após a cerimônia. Mas não basta ser qualquer moça: ela ainda tem de sobreviver ao Ritual da Lâmina Ardente. Ao longo dos anos, Lo Pan submeteu várias moças a este ritual sem sucesso, mas, agora que encontrou uma chinesa, tem certeza de que conseguirá se casar e dominar o mundo com seus poderes.

Gracie, Jack, Wang e Miao YinLo Pan é auxiliado por uma gangue, os Wing Kong, e por três seres mágicos conhecidos como as Tempestades. As Tempestades seqüestram Miao Yin, e a levam para uma fortaleza subterrânea secreta, localizada abaixo da sede das Indústrias Wing Kong, de propriedade de David Lo Pan. A princípio, Burton e Wang tentam resgatar Miao Yin sozinhos, mas não obtêm sucesso. Durante esta tentativa, Gracie também é seqüestrada por um dos monstros que servem Lo Pan, que decide que também irá submetê-la ao Ritual da Lâmina Ardente, já que ela também tem olhos verdes. Como ambas as garotas sobrevivem, Lo Pan decide que irá se casar com as duas, sacrificando Gracie para completar o ritual, e aproveitando seus novos prazeres terrenos com Miao Yin. Burton e Wang então retornam acompanhados da gangue rival dos Wing Kong, os Chang Sings, e do feiticeiro Egg Shen (Victor Wong), que há anos tenta destruir Lo Pan sem sucesso. Sua missão será a de salvar as moças e acabar com o vilão de uma vez por todas, antes que ele mate Gracie e se torne invencível.

O filme é uma excelente mistura de ação com comédia, e foi um dos primeiros a incluir elementos da mitologia oriental, em uma época em que isso ainda não era mania. Curiosamente, no roteiro original o filme era ambientado no Velho Oeste, com Jack Burton sendo um caubói de passagem por uma cidade com muitos moradores chineses que estariam trabalhando em uma estrada-de-ferro. O produtor Paul Monash gostou do roteiro, mas achou que seria impossível fazer um filme que misturasse mitologia chinesa com faroeste, então decidiu que seria melhor se fosse ambientado na época atual.

Lo PanKurt Russell e Kim Cattrall também quase não estiveram no filme. Os Aventureiros estavam programados para estrear somente em 1987, mas no final de 1986 estrearia o novo filme de Eddie Murphy, O Rapto do Menino Dourado - aliás, curiosamente, Carpenter havia sido escolhido para dirigí-lo, mas recusou. Carpenter já havia tido uma experiência desgradável com filmes seus estreando após blockbusters, quando seu O Enigma de Outro Mundo estreou pouco depois de E.T. - o Extraterrestre, e não teve bom público, já que tratava do mesmo tema - alienígenas. Carpenter decidiu correr com as filmagens para que os Aventureiros fossem lançados antes do Menino Dourado, já que ambos traziam elementos orientais, e a Fox sugeriu que, para competir com Eddie Murphy, o papel de Jack Burton ficasse ou com Clint Eastwood ou Jack Nicholson. Carpenter, porém, queria dar mais uma vez o papel principal a seu amigo Russell, o que acabou conseguindo quando se constatou que tanto Eastwood quanto Nicholson estavam envolvidos em outros projetos, e não poderiam começar a filmar a tempo. A Fox também queria que uma cantora de rock fizesse o papel de Gracie Law, mas Carpenter bateu o pé por Cattrall, considerada pelo estúdio como "inadequada", por ser conhecida por filmes de comédia mais pastelão como Porky's e Loucademia de Polícia.

Graças à correria para ser lançado antes do Menino Dourado, o filme foi todo rodado em 15 semanas, com um orçamento de 25 milhões de dólares, baixo até para os padrões da época; ainda assim, trouxe efeitos especiais de última geração, e se tornou um grande sucesso, provando que a teoria de que o filme lançado antes se sai melhor - corroborada pelo relativo fracasso do Menino Dourado.

Mas o dado mais curioso sobre este filme foi o de que ele influenciou John Tobias, um dos criadores do Mortal Kombat, que admite que o maligno feiticeiro Shang Tsung foi inspirado em Lo Pan, e o deus do trovão Raiden em uma das três Tempestades. Aliás, a semelhança é tão gritante que muita gente se refere a este personagem como "Raiden".
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Olimpíadas (VIII)

E hoje é dia de mais um post sobre as Olimpíadas!

Garmisch-Partenkirchen 1936


Em seu congresso realizado no ano de 1931, o COI escolheu para sede dos Jogos de Verão de 1936 Berlim, capital da Alemanha. Como o regulamento da época previa, a Alemanha, portanto, teria prioridade na escolha da sede para as Olimpíadas de Inverno que ocorreriam no mesmo ano. À época, as melhores instalações para a prática dos esportes de inverno não estavam em uma, mas em duas cidades daquele país, as pequenas e vizinhas Garmisch e Partenkirchen, localizadas ao sul da Bavária, fronteira com a Áustria. Sem poder indicar duas cidades como sede, e querendo aproveitar as instalações para poupar dinheiro, Adolf Hitler, então comandante do país, viu uma solução muito simples para o seu problema: ordenou que as duas se fundissem, criando a cidade de Garmisch-Partenkirchen. A fusão ocorreu em 1935, e as duas continuam unidas até hoje, muitas vezes sendo a nova cidade referenciada apenas como Garmisch, o que provoca algumas reclamações por parte dos moradores mais antigos do lado que era Partenkirchen.

Após a fusão, o governo da Alemanha tratou de providenciar todas as obras necessárias ao sucesso do evento. Pistas de esqui e trenó foram reformadas, foi construído o Olympia Skistadion, um estádio onde ocorreram as disputas de saltos com esqui e as cerimônias de abertura e encerramento, e um moderno sistema de ônibus foi implementado ligando as duas cidades, permitindo que os espectadores se deslocassem com rapidez entre um evento e outro. Graças a ele, 500.000 espectadores viram ao vivo as modalidades, um recorde para os Jogos de Inverno.

Participaram do evento 646 atletas, sendo 80 mulheres, representando 28 nações em 17 modalidades de 8 esportes: bobsleding, combinado nórdico, esqui alpino, esqui cross country, hóquei no gelo, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade e saltos com esqui. O biatlo foi mais uma vez um esporte de demonstração, acompanhado do eisstockschiessen, uma variante alemã do curling. Os Jogos aconteceram entre 6 e 16 de fevereiro, quando uma cerimônia de encerramento com uma grande queima de fogos os encerrou de forma memorável. Durante toda a sua duração, uma grande pira permaneceu acesa no Olympia Skistadion, mas ela havia sido acendida antes da cerimônia, e não pela Tocha Olímpica como logo viria a se tornar um costume.

A modalidade de esqui conhecida como alpina estreou nestes Jogos com um evento combinado, que somava os pontos das provas de descida e slalom. Logo na estréia a modalidade já criou uma controvérsia, pois o COI impediu instrutores de esqui de se inscrever para o evento, alegando que estes eram profissionais. Revoltados, os atletas da Áustria e da Suíça decidiram boicotar o evento, o que abriu o caminho para que os atletas da casa conquistassem as medalhas de ouro e prata tanto no masculino quanto no feminino. A confusão causada pelo incidente foi tanta que o COI, em sua reunião seguinte, decidiu não incluir o evento no programa dos Jogos de 1940.

Falando em esqui, o norueguês Birger Ruud, ouro nos saltos com esqui em 1932, tentou um feito inusitado, ao competir simultaneamente no esqui alpino e no combinado nórdico, além de nos saltos. No primeiro ele ia muito bem, vencendo o evento de descida, mas errou a passagem de um portal no slalom e terminou em quarto lugar. No segundo evento ele não foi bem, e não conseguiu uma colocação expressiva. Mas Ruud não sairia de Garmisch-Partenkirchen de mãos abanando: na semana seguinte ele conseguiria o ouro nos saltos, repetindo seu feito de quatro anos antes.

Um norueguês também seria o destaque da patinação no gelo em velocidade: Ivar Ballangrund ganharia três das quatro medalhas de ouro possíveis, nos 500, 5.000 e 10.000 metros, e ainda ficaria com a prata nos 1.500 metros, atrás de seu compatriota Charles Mathiesen. A Noruega também não deixaria a peteca cair na patinação artística no gelo feminina, onde o destaque seria mais uma vez Sonja Henie, que ganhou sua terceira medalha de ouro consecutiva, agora aos 23 anos. Estes seriam os últimos Jogos de Henie, porém. Logo após o evento, ela se profissionalizou, e rodou o mundo com shows de balé no gelo, alcançando grande fama e popularidade, principalmente nos Estados Unidos. Henie pode ter sido pedra cantada, mas outro favorito, o time de hóquei no gelo do Canadá, não foi, perdendo duas vezes para a Grã-Bretanha, que ficou com o ouro. Ironicamente, 11 dos 12 jogadores da Grã-Bretanha jogavam ou haviam jogado em times do Canadá, e um deles era um canadense naturalizado.

Apesar de bem sucedidos, estes foram Jogos estranhos: muitos temiam que os nazistas se aproveitassem do evento para fazer propaganda de seu governo. A propaganda realmente aconteceu, mas foi, de certa forma, contida. Isso porque eles estavam esperando o evento principal, que aconteceria alguns meses depois.

Berlim 1936


Berlim foi escolhida como sede dos Jogos de 1936 na reunião do COI de 1931 - antes, portanto, que o partido nazista chegasse ao poder na Alemanha. Mas era óbvio que, uma vez no comando, Adolf Hitler faria todo o possível para mostrar ao mundo, durante os Jogos Olímpicos, como a Alemanha sob seu comando era uma nação forte e organizada, como o nazismo era a mais acertada forma de governo, e - talvez principalmente - como a raça ariana era superior a todas as demais no campo esportivo. O führer chegou até a fazer uma otimistíssima estimativa de que os atletas alemães ganhariam sessenta medalhas de ouro, quase a metade do total em jogo.

É importante que se diga que, em 1936, Hitler ainda não era o inimigo do mundo, e a Alemanha era um país como qualquer outro. Assim, não foi nenhuma aberração o fato de que nenhuma das prinicpais nações do mundo tenha se recusado a participar, ou até mesmo que o COI tenha deixado Adolf Hitler proferir um discurso na Cerimônia de Abertura. Hoje muitos estranham que a última Olimpíada antes da Segunda Guerra tenha acontecido justamente na Alemanha nazista, mas na época ninguém que não tivesse poderes divinatórios poderia prever o que estava para acontecer.

Ainda assim, muitos estavam preocupados com a política claramente racista dos nazistas, principalmente os judeus norte-americanos, liderados pelo diplomata Henry Morgenthau, que convenceu o Presidente Roosevelt a enviar um observador à Alemanha em 1934, que teria a tarefa de averiguar se seria seguro que os norte-americanos participassem do evento. A idéia de Morgenthau era, uma vez comprovado que os nazistas se aproveitariam dos Jogos para se autopromover, boicotar o evento e pressionar o COI a mudar a sede de 1936 para Barcelona. Roosevelt enviou a Berlim o presidente do comitê olímpico norte-americano, Avery Brundage. A tarefa de Brundage seria elaborar um minucioso relatório sobre o alcance do nazismo e as intenções de Hitler. Roosevelt não sabia, porém, que Brundage era ele mesmo um racista, presidente de um clube que não permitia a entrada de negros ou judeus, e que na presidência do comitê olímpico norte-americano se empenhava ao máximo para impedir que Jim Thorpe, medalhista de ouro em 1912 que teve sua medalha cassada por uma falsa alegação de profissionalismo, a obtivesse de volta, pelo simples motivo de que Thorpe descendia de índios. Brundage, evidentemente, fez um relatório altamente favorável à Alemanha, no qual chegou até mesmo a escrever "temos muito o que aprender com os alemães". Mesmo com este relatório, a idéia da troca de sede ainda permaneceria viva, mas iria por água abaixo de uma vez por todas após o início da Guerra Civil Espanhola.

Para sepultar de vez qualquer chance de que a Alemanha não viesse a hospedar as Olimpíadas, Hitler decidiu gastar uma fortuna impensável para a época na construção das mais modernas instalações que o mundo já vira, a começar pela magnífica Praça Olímpica, construída em volta do Estádio Olímpico que havia sido erguido para os cancelados Jogos de 1916. Com um plano simétrico, a Praça abrigava o Estádio Olímpico, que não era o mesmo de 1916, mas um totalmente novo e moderníssimo, com capacidade para 110 mil pessoas, construído no exato mesmo local; o gramado de Maifeld, capacidade para 250 mil, utilizado para demonstrações de ginástica, e, durante as Olimpíadas, para o pólo a cavalo; uma piscina com capacidade para 16 mil espectadores; um anfiteatro para mais 25 mil; e outros 150 prédios, usados para as mais diversas competições esportivas, durante os Jogos Olímpicos ou após. O complexo existe até hoje, e o Estádio Olímpico, reformado, foi palco da final da Copa de 2006.

E ainda havia a Vila Olímpica, construída nas imediações da Praça Olímpica, que contava com chalés de alvenaria, hospital, salas de ginástica e 38 refeitórios. As mulheres ganharam sua própria Vila Olímpica, com casinhas muito mais confortáveis que as dos homens. Como se construir todo este complexo não fosse o bastante, os alemães ainda o equiparam com a mais moderna tecnologia, os equipamentos mais precisos da época para controle dos tempos das provas, e um serviço de atendimento aos jornalistas que produzia quatro boletins diários em catorze idiomas diferentes sobre o andamento dos Jogos. Esta também foi a primeira Olimpíada a ser transmitida pela televisão, cortesia da Telefunken, que ainda montou diversas telas de cinema improvisadas por toda a cidade, para que aqueles que não pudessem ir aos locais das competições também pudessem acompanhá-las. Falando em cinema, Hitler encomendou à cineasta Leni Riefenstahl um filme que cobrisse o desempenho dos atletas alemães durante as competições, o primeiro Filme Oficial de uma Olimpíada.

A vontade de Hitler de mostrar sua Olimpíada ao mundo era tanta que o governo alemão arcou com as despesas integrais de viagem e transporte de todas as delegações que se dispusessem a participar. Em um ato que pode parecer contraditório, Hitler não impediu a inscrição de atletas negros ou judeus - nem mesmo os que iriam competir pela Alemanha. Esta atitude teve dois motivos básicos: primeiro, engolindo seu constrangimento e não se opondo, Hitler afastava a desconfiança de que a Alemanha queria fazer destes Jogos "armados", prontos para que só arianos ganhassem medalhas. Além disso, Hitler estava tão certo de que os atletas "puros" iriam ganhar que, quando o fizessem, apenas demonstrariam sua superioridade sobre os negros e judeus. Como vamos ver daqui a pouco, não foi bem isso o que aconteceu.

Participaram dos Jogos de 1936, realizados entre 1o e 16 de agosto, 4.066 atletas, um número absolutamente impressionante para a época, sendo que 328 eram mulheres. 49 nações foram representadas em 129 modalidades de 22 esportes: atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica, halterofilismo, handebol, hóquei, luta greco-romana, luta livre, natação, pentatlo moderno, pólo a cavalo, pólo aquático, remo, saltos ornamentais, tiro e vela; mais beisebol e vôo planado como esportes de demonstração. Na cerimônia de abertura, além do desfile das delegações, houve a revoada de vinte mil pombos brancos, um sino de catorze toneladas badalando no ritmo do Hino Nacional da Alemanha, e o início da talvez mais famosa das tradições olímpicas: ao final da cerimônia, um atleta entrou no estádio trazendo uma tocha, a qual passou para um colega, que deu uma volta na pista e a entregou para Fritz Schilgen, que a usou para acender uma gigantesca pira, sob os aplausos emocionados de mais de cem mil pessoas. Uma idéia do cientista esportivo Carl Diem, a tocha tinha sido acesa pela luz do Sol em Olímpia, Grécia, no local onde na antigüidade se localizava um templo da deusa Héstia. A tocha foi levada de Olímpia a Berlim a pé, por um revezamento de mais de três mil atletas, e o fogo da pira acesa por ela permaneceria aceso por toda a duração dos Jogos. Tão forte foi o simbolismo do momento que todas as edições dos Jogos Olímpicos (pelo menos dos de Verão) a partir de então teriam uma tocha, revezamento e pira semelhantes.

Hitler tinha certeza de que seus atletas sobrepujariam todos os estrangeiros - afinal, eles eram de uma raça superior. As provas, porém, demonstrariam o contrário. A Alemanha ganharia 32 medalhas de ouro, apenas oito a mais que os Estados Unidos. Muitos dos títulos da competição seriam conquistados por negros, orientais e judeus. Mas houve um homem que se tornou emblemático: o norte-americano Jesse Owens. Neto de escravos, nascido no Alabama, aos nove anos Owens se mudou com a família para Cleveland para fugir do racismo do sul dos Estados Unidos, e logo se descobriu um atleta fantástico nas provas de velocidade e de salto. Em 1936, Owens ganharia nada menos que quatro medalhas de ouro, nos 100 e 200 metros, no revezamento 4x100 metros, e no salto em distância. Esta última foi a mais emocionante: enquanto se aquecia, Owens deu um salto para "testar a pista", procedimento comum entre os atletas deste esporte. Visando prejudicá-lo, os árbitros validaram este salto, deixando o atleta com apenas mais duas oportunidades para conseguir uma marca que o permitisse avançar na competição. Tenso com a situação, Owens queimou seu segundo salto, e quase foi eliminado. Seu principal oponente na prova, o louríssimo alemão Lutz Long, fluente em inglês, se indignou com a atitude dos fiscais, e durante um intervalo foi conversar com Owens. Após um animado papo, Long aconselhou Owens a começar sua corrida um pouco antes do local onde havia começado os dois saltos anteriores, e se despediu com a frase "por enquanto, você não precisa se preocupar em vencer, apenas em se classificar". Mais relaxado, Owens avançou na prova, até conquistar a medalha de ouro, diante de um constrangido Hitler, que assistia à competição da tribuna de honra do estádio. Depois da prova, Owens e Long se tornariam amicíssimos. Long faleceu durante um combate na Segunda Guerra Mundial, mas, até o final de sua vida, Owens ainda manteria contato com sua família. Long acabou recebendo postumamente a Medalha Pierre de Coubertin, reservada aos atletas que demonstram o verdadeiro espírito da esportividade durante os Jogos Olímpicos.

A maratona também teve uma história interessante: seu vencedor foi o coreano Sohn Kee-chung, de 23 anos, que estabeleceu um novo recorde olímpico. Outro coreano, Nam Seung-yong, chegaria em terceiro lugar, ganhando a medalha de bronze. A Coréia, na época, porém, não existia como nação, pois havia sido anexada pelo Japão em 1910. Kee-chung e Seung-yong, portanto, tiveram que competir pelo Japão, usando os nomes de Kitei Son e Shoryu Nan, a pronúncia japonesa para os ideogramas utilizados para escrever seus nomes originais. Kee-chung ainda tentou se inscrever como atleta apátrida, mas o COI não permitiu. Sem escolha, ao vencer a prova, ele viu a bandeira do Japão ser hasteada, enquanto o hino japonês era executado. Após a Guerra, nos Jogos de 1948, com a Coréia finalmente livre do domínio japonês, Kee-chung foi escolhido como porta-bandeira da Coréia do Sul durante a Cerimônia de Abertura. 50 anos depois, ele receberia uma nova homenagem, entrando com a Tocha Olímpica no estádio durante a abertura dos Jogos de Seul, em seu país. Nesta ocasião, o COI determinou que os dois maratonistas coreanos de 1936 tivessem seus nomes registrados com a grafia correta, e que ficassem registrados na História dos Jogos como coreanos, não japoneses.

Os esportes coletivos de 1936 merecem algum destaque. O basquete finalmente fez sua estréia no programa olímpico, após anos de insistência por parte dos Estados Unidos. Não foi uma estréia memorável, porém: na falta de quadras de basquete, as partidas foram disputadas em quadras de tênis adaptadas. Até aí tudo bem, se o piso de tais quadras não fosse de saibro. Ainda assim, fora uma eventual poeira e sujeira, nada de mais. Só que no dia da final choveu. Os times dos Estados Unidos e do Canadá tiveram de fazer um esforço sobre-humano para controlar a bola, e a primeira final olímpica do basquete acabou com o inacreditável placar de 19 a 8 para os norte-americanos.

Outro esporte coletivo a estrear em Berlim foi o handebol, mas não o handebol de quadra, como conhecemos hoje, e que estrearia nos Jogos também na Alemanha, mas em 1972. O esporte disputado em 1936 foi o handebol de campo, onde os times têm onze de cada lado em um campo quase do mesmo tamanho do de futebol. A Alemanha ficou com a medalha de ouro, batendo a Áustria por 10 a 6 na final. No futebol, a medalha de ouro ficou com a Itália, campeã da Copa de 1934, e que dali a dois anos ganharia o bi na Copa de 1938. Na final, a Azzurra bateria a Áustria por 2 a 1. Muitos, inclusive, consideram este time da Áustria o melhor da época, e lamentam que o país não possa ter participado da Copa de 1938 por ter sido invadido pela Alemanha.

Em pelo menos duas das competições houve expresso protecionismo aos atletas da casa: para a equitação, foi montada uma pista dificílima, capaz de ser superada apenas pelos cavaleiros alemães, que já conheciam o percurso. O resultado foi que a Alemanha ganhou todas as medalhas de ouro do esporte, e mais uma prata no adestramento. Pior que isso, no concurso completo três cavalos se machucaram seriamente, e tiveram de ser sacrificados. Mas ainda mais ultrajante foi a atuação dos fiscais na prova de velocidade scratch do ciclismo: o alemão Toni Merkens impediu a passagem do holandês Arie Van Vliet ilegalmente, e graças a isso conquistou o ouro. Ao invés de desclassificá-lo como manda o regulamento, os fiscais simplesmente lhe impuseram uma multa de 100 marcos.

Entre as mulheres, os destaques viriam da natação, a começar por uma holandesa de 17 anos, Henrika Mastenbroek, apelidada Rie, três ouros e uma prata. Um prodígio, dona de vários títulos europeus, Rie subiria ao lugar mais alto do pódio nos 100 e nos 400 metros livre e no revezamento 4x100 livre, e ficaria com o segundo lugar curiosamente em sua melhor prova, os 100 metros costas, onde havia baixado o recorde mundial em quase três segundos em fevereiro de 1936. Mais impressionante ainda, na prova Rie foi suplantada por sua compatriota Dina Senff, que, ao fazer a virada do meio da prova, não tocou na borda da piscina. Com medo de ser desclassificada, Senff voltou, tocou a borda, virou de novo, e ainda chegou três décimos à frente de Rie. Outra nadadora fantástica ficaria com a prata nos 400 metros livre, a dinamarquesa Ragnhild Hveger, de apenas quinze anos, que nos seis anos seguintes ganharia tudo o que disputou, quebrando 42 recordes, sendo que quatro deles só seriam superados em 1953.

O Brasil enviou 94 atletas a Berlim, sendo 6 mulheres. O Comitê Olímpico Brasileiro havia acabado de ser fundado, em 1935, e se imaginava que, pela primeira vez, o país pudesse mandar para uma Olimpíada seus melhores atletas, independentemente de brigas políticas ou desavenças pessoais. Infelizmente, não foi bem assim. A Confederação Brasileira de Desportos se recusou a reconhecer o COB, e decidiu ela mesma montar a delegação que representaria o Brasil na Alemanha. O resultado foi que o país enviou duas delegações distintas: pela CBD, foram atletas do atletismo, natação e remo; pelo COB foram inscritos competidores do atletismo, boxe, ciclismo, esgrima, natação, pentatlo moderno, remo, tiro, vela, e mais a seleção brasileira de basquete. Mesmo com essa confusão, o Brasil conseguiu três quintos lugares, com Sylvo Padilha nos 400 metros com barreira do atletismo, Piedade Coutinho nos 400 metros livre da natação, e José Salvador Trindade na carabina, modalidade deitado, do tiro. Mesmo sem ter tido uma boa colocação, também merece destaque a nadadora Maria Lenk, de 17 anos, a primeira sul-americana a nadar em uma Olimpíada, e que inventou uma nova forma de nado estilo peito, cujas braçadas eram realizadas fora da água, e acabou se tornando um novo estilo, chamado hoje borboleta ou golfinho. Lenk disputou os 200 metros peito, mas esgotada pela viagem e com medo de ser desclassificada pelos fiscais, que a toda hora perguntavam se aquele tipo de nado era válido, não se classificou para a final da prova. Três anos depois, porém, Lenk quebraria os recordes mundiais dos 200 e dos 400 metros peito, e se tivesse havido uma Olimpíada em 1940, ela teria grandes chances de ter conquistado o ouro. Lenk nada até hoje, disputando competições na categoria masters.

Muito doente, praticamente incapaz de se mover, o Barão de Coubertin pouco soube do que aconteceu em Berlim - ou, se soube, não compreendeu. Chegou a enviar uma carta a Carl Diem, parabenizando os alemães pelo evento grandioso que organizaram, carta esta que os nazistas não tardaram em revelar como prova de que sua Olimpíada tinha sido um sucesso. Coubertin morreria em 1937, aos 74 anos. Seu corpo foi enterrado em Lausanne, cidade sede do COI, exceto seu coração, que de acordo com o disposto em seu testamento, foi enterrado em Olímpia, onde hoje existe um monumento em sua homenagem.

Melhor para o Barão, ele não viu a seqüência das Olimpíadas ser interrompida mais uma vez, desta vez pelo longo período de doze anos. Jogos depois destes, só em 1948. Infelizmente, com uma Guerra no meio.
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